Vislumbres

Palavras em movimento

Por Fabricio Duque

Ocupação Cavideo Sala 4

Cada vez o ser humano acolhe mais a certeza de que a visualização perceptiva e subjetiva sobre a própria existência (e tudo que a compõe ao redor) é parcial. Um vislumbre e um fraco enxergar (a metáfora do que se vê é o que se quer ver), às vezes transitivo e direto. Nunca com a plenitude da luz e sempre com a dúvida da melhor verdade. Vislumbrar é também começar a entender. Conjecturar experiências de vida por projeções mentais. É pensar tanto que cansa. É não se permitir descansar de si mesmo e só “sossegar” quando a definição real sobre tudo vier à tona. Vislumbrar é despontar e se assemelhar. Nascer na essência. Ideias em ebulição e sentimentos para explorar. É rememorar com sugestão. O verbo mencionado pode ser considerado um dos mais complexos, visto que estende possibilidades do estar e ser. De não limitação com o estágio atual. Quando este se transmuta em substantivo masculino, temos então um “mundo inteiro” de sinais indicativos. 

O preâmbulo acima conjuga embasamento à análise do curta-metragem “Vislumbres”, estreia na direção da  coreógrafa Regina Miranda, que constrói um filme-livro sobre a relação de Clarice Lispector com Maria Telles Ribeiro por memórias, sensações e “palavras corroídas”. Uma ucraniana radicalizada brasileira (interpretada por Andressa Furletti). A outra brasileira (pela atriz Patricia Oliveira), que morou em Berna, no ano de 1948. Aqui, a narrativa convida o espectador a uma viagem no tempo. À ingenuidade de perspicazes discursos. De fusões passadas (etéreas, quase fantasmagóricas). Tudo para buscar a descrição da precisão. Das angústias acometidas às escritoras, que se resignam a “doar” seus corpos para serem usados como veículos de questionamentos morais, existencialistas e político-sociais.

“Vislumbres” está no plural e representa a infinita busca por indícios, vestígios, traços, evidências, amostras, raios e marcas. É uma forma pessoal de “ressuscitar Clarice”. De trazer a versão “parcial” e emocionalmente alterada de “morte” e de “vida”, que se unem em sinapses reconstituídas. O filme acontece pela naturalidade da elegância de não se pretender ser, invocando a estrutura teatral e de verborragia do cúmplice embate. É um passeio pela intimidade ficcional de Clarice e de Maria, entre a necessidade “diplomática” e as “ceias de natal”. O roteiro de Regina pulula instantes temporais, e são tematicamente ambientados pela voz off da própria diretora. O curta configura-se como um gênero de época, mas sua tradução é modernizada pela fotografia digital, quase 4K, à moda referencial de seu espetáculo “Rômula e Nijinsky”. Quem assistiu à peça se identificará com a forma conduzida: uma literatura coloquial, de filosofia catártica, de silêncios barulhentos e de imagéticas contradições.

“Vislumbres” é mais que uma homenagem. É uma passional carta de amor. Sincera, inteligente e de caseiro rebuscamento, propositalmente amador. Nós podemos concretizar pensamentos de Clarice, que por coincidência (minha), nasceu no mesmo dia que eu: 10 de dezembro. Uma sagitariana melancólica e apaixonada pela arte de se perder nas próprias escritas. Uma visionária judia que traduziu como ninguém a solidão e a fascinação pela morte. Exibido durante a Ocupação Sala 4 da Cavideo no Estação Net Botafogo, o filme é uma promissora estreia sobre “ânsias contidas” em movimento que dançam ao calor das palavras, pela poesia sem sombras da imagem que aqui não faz perder a luz.     

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