Me Cuidem-Se!

A saga chega ao fim, mas a vida continua

Por Fabricio Duque

Em março de 2020 o mundo parou. Um vírus mortal, que mais parece ter saído das telas do cinema, colocou todos em quarentena. Um confinamento. Ou como diz Regina Miranda, um “espaço solidário” para se proteger e principalmente, ajudar a nossos próximos a se manterem vivos. Foi “vendido” a  ideia da reinvenção do ser e a volta dos valores básicos da convivência compartilhada. Ao longo do ano passado, indivíduos sociais foram obrigados a rever existências e missões da própria vida, como o simples fato de usar máscaras, por exemplo. Criava-se a mais perfeita metáfora-paradoxo: esconder o rosto para expor os direitos-ações humanos.

O cinema respondeu rápido às demandas artísticas, criando a estética da quarentena logo em seus primeiros meses com os seis curtas-metragens pioneiros da série “Me Cuidem-Se! – Um Filme-Processo”, de Bebeto Abrantes e Cavi Borges. O que os realizadores brasileiros fizeram foi muito mais do que uma simples obra documental de subjetivação substitutiva. Foi na verdade um diário histórico e terapêutico do surreal, e até então incompreendido, cotidiano vivido. Cada um dos atores expôs seus questionamentos, medos, anseios, dúvidas, existências, limitações, quereres, pessimismos e a eterna busca pela esperança. Patricia Niedermeier, Regina Miranda, Arthur Palhano, Aline Deluna, Amaury de Sousa, Raquel Gandra, Luana Pinheiro, Sylvio Lanna e Thiago Firmino Oliveira. Todo o processo do filme aconteceu sem nenhum contato físico e nenhuma filmagem presencial entre atores e diretores.

Neste 2021, ano que infelizmente a pandemia só fez crescer o número de mortes diários no Brasil,  Bebeto e Cavi lançam “Me Cuidem-Se! – O Filme”, pré-estreia no Festival Estação Virtual, longa-metragem, que não só condensa trechos escolhidos da série (a fim de fornecer uma curadoria autoral voltada ao resultado final), como interfere na própria narrativa-condução, por meio de uma metalinguagem sonora: áudios-bastidores trocados pelos diretores no WhatsApp. Nós espectadores deixamos por um instante de ser apenas passivos observacionais, devido ao fato de que somos invadidos, por identificação, à trama, esta que representa o imaginário popular, povoado por seres sociais, que não só abandonaram com rebeldia o “presente” da reinvenção-evolução, como disseram não ao confinamento, gerando mais casos fatais, muito alimentados pela política do “contágio 70%” do Presidente da República do Brasil. Tudo foi registrado e abordado neste longa-metragem, que funcionou como um canal de notícias. Um jornalismo transmutado pela necessidade de informar e mostrar sofrimentos, descasos, otimismos e pequenas alegrias mundanas.

“Me Cuidem-Se! – O Filme” é um documento de serviço social. Uma análise de crônicas faladas e ouvidas. Uma imersão intimista no micro para tentar explicar o macro. Aqui, adentramos no trabalho humanitário das comunidades; na problematização política; nas conversas sobre morte; na felicidade das pequenas coisas (tomar sol e/ou cantar uma música); nas performances da atriz Patricia Niedermeier (que como artista “incorporou” a seu processo de criação os sintomas reais do COVID-19, entre sacos, danças, respiros e águas); nas flexibilizações da quarentena (festas aglomeradas e bares lotados), cada um desses pontos ajudou a listar o que de verdade aconteceu neste período. E dessa forma nos damos conta que o cinema é sim a arte mais completa, porque no futuro todas as imagens produzidas no agora serão parte do retrato antepassado de uma população. Cada um desses participantes já “estreou” perpetuado na História.

Neste longa-metragem, quer-se a essência mais natural. O momento mais orgânico, mais caseiro e o mais estético amador, ainda que já sabido e esperado de que não há verdade totalmente verídica quando se liga uma câmera, especialmente quando a escolha é a de quem se grava. “Me Cuidem-Se! – O Filme” busca receber a situação mais inusitada, o acaso mais banal, o silêncio mais barulhento, desejando aquela emoção complementar (quando a hesitação mostra mais que a própria preparação) que nos mergulha no cinema direto. É uma invasão inter-telas. Uma ocupação do olhar. Um atravessamento cúmplice entre o receptor e o ator. Esta é uma obra experiência. Uma metafísica da própria realidade que ganha contornos ficcionais para se expressar como real em um instante completamente de fantasia científica, que vai além do entendimento racional.

“Me Cuidem-Se! – O Filme” desconstrói camadas com ressignificação. Enxerga-se esta realidade direta com olhos retraídos e descrentes. Um misto de utopia religiosa (de uma crença enraizada de que tudo sempre ficará bem) e de choque (quando se percebe que a morte está iminente). Por mais que o filme alterne desistência e esperança; otimismo versus pessimismo, a mensagem é clara: nós precisamos nos tornar seres humanos melhores se quisermos conviver em sociedade. “Me Cuidem-Se! – O Filme” também pode ser definido como uma novela (capítulos em elipses). Tudo porque a série aqui chega a sua temporada final, mas não as reviravoltas de suas personagens no mundo. A cada dia, novos sustos e informes são reverberados. Não há pipoca que dure tanta mudança. Tivemos “quatorze convites” para embarcar na “arca”. Todos negados por nossos governantes máximos. Estamos em uma CPI da COVID. Hoje tem ou não vacina? Todo dia uma “emoção” nova. Sim, o Brasil não é para os fracos e só sobrevivemos porque somos brasileiros. “Me Cuidem-Se!” então. Cuidar de si para cuidar do outro. Bebeto, Cavi e trupe cuidaram da gente por um ano inteiro e nos aqueceram do “Winter is Coming”. Obrigado!


Me Cuidem-se

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