Vozes da Floresta

Por Filippo Pitanga

Vozes da FlorestaVozes da Floresta

Brado de resistência

Por Filippo Pitanga

Durante o Festival Cine Ceará 2019

 

“Vozes da Floresta” de Betse de Paula, que trouxe algumas das ativistas que figuram no filme para prestar depoimentos emocionados e engajados presencialmente no 29º Cine Ceará, é, definitivamente, um filme-manifesto. Ainda que o documentário, que concorre na competição principal de longas íbero-americanos do Festival, tenha sido adaptado de uma série de TV (o que gera debates sobre sua linguagem ter alcançado ou não um patamar cinematográfico para a tela grande), a causa em si e a importância dos registros ali contidos, e agrupados num só lugar, não nega o fato de que este documento seja imprescindível para a história.

Um forte e poderoso relato e balanço das mazelas e perseguições e ameaças de morte às ativistas indígenas e quilombolas, especialmente líderes mulheres, como algumas que já possuem grande visibilidade midiática por terem se tornado políticas ou figuras públicas, por exemplo, como Joênia Wapixana, Sônia Guajajara, Dona Nice e Dona Dijé. Outras várias personagens também possuem igual força e inserção em suas respectivas comunidades, podendo ser citadas algumas daquelas que foram trazidas pela produção do Festival para dialogar com os jornalistas, como as presentes Nice Machado, Dorinete (Neta) Morais e Rosenilde (Rosa) Costa.

Elas falam em “Vozes da Floresta” sobre as comunidades ribeirinhas, de quebradeiras de côco, dos marisqueiros, quilombos e etc… Também tangenciam inúmeros tópicos como a venda pelo governo da região de Alcântara no Maranhão, que poderá acarretar na remoção de inúmeras comunidades e incontáveis vidas. E, noutro relato, sobre o desastre de Belo Monte que a comunidade no entorno previu e tentou alertar de todas as formas o quão devastador foi para a natureza.

Vários desastres que poderiam ter sido evitados, como agora no presente momento o incêndio da Amazônia por exploração violenta, e sancionada pelo Estado, se simplesmente houvesse a preservação das comunidades e culturas do entorno que mantém a história e a vida destes territórios independente do único interesse no capital pelo governo – tudo interligado por alguns detalhes para tentar costurar os episódios num longa-metragem bem integrado, como a poética trilha de borboletas amarelas que literalmente seguem várias das personagens de forma lírica (e não são computação gráfica, e sim de fato borboletas de verdade que existem em abundância naquelas comunidades preservadas); Ou mesmo a oralidade em se passar sua história e cultura através das músicas, na voz destas mesmas líderes femininas, desde batuques das comunidades quilombolas aos versos sobre a natureza de tribos indígenas.

Mas também é um fato que “Vozes da Floresta” se originou de uma série de documentários para TV chamada Guardiãs da Floresta, com dez episódios recuperando a história de vida de lideranças femininas da floresta, o que imprime um pouco de uma linguagem jornalística e didática que não deixa de ser necessária, mas que também pode deixar de enriquecer um poder de atração tão típico da tela grande.

Claro que a “atração” de verdade está na empatia com a química destas incríveis representantes de lutas populares, e apenas de seguir seus passos já preencheria a tela de pulsões atrativas, só que vale ressaltar um outro atributo que distancia o filme um pouco mais de sua linguagem televisiva para valorizar o lançamento nas telonas: os espaços e enquadramentos são muito guiados pelas próprias personagens. Como no momento em que um das depoentes explica que a expressão “pega no laço”, sobre parentes indígenas de famílias brancas e colonizadoras que retiraram aquelas mulheres de sua terra para levar e incorporar em suas famílias, na verdade, quer dizer estupro. Quer dizer uma violência à mulher e à sua cultura.

E essa tomada se dá num plongé, com a imagem aérea em mergulho do alto de uma montanha, acima de toda uma floresta, para lembrar que a responsabilidade sobre esta fala é de todos nós em dívida com a terra e com a natureza que foi violentada também. E isto é algo que Betse alcançou com uma horizontalidade no fazer fílmico, com escuta ativa e cooperação de todas as envolvidas. E isto agrega um valor à obra inestimável que reflete o quanto a luta e causa destas bravas guerreiras merece as telas grandes de todo o território brasileiro, inclusive, e estrangeiro, para alertar a todos da luta de nossos verdadeiros Brasis.

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