Você tem olhos tristes

Sem perspectiva

Por Victor Faverin

Durante o Festival de Cinema de Gramado 2020

A uberização do trabalho é uma realidade triste e mundial que coloca pessoas em subempregos com remuneração muito abaixo da praticada no dito mercado. Além de horas sem descanso em uma atividade extenuante, pessoas nessas condições ainda lidam com riscos à vida, à saúde e com preconceito, seja velado ou escancarado. Logo na primeira cena do curta-metragem paulista que compõe a Mostra Competitiva do 48º Festival de Cinema de Gramado, “Você tem olhos tristes” (2020), dirigido por Diogo Leite, vemos o retrato feio de uma classe média que tem a faculdade paga pelos pais e o carro financiado pela tia, mas que defende a meritocracia. Trata-se do mesmo tipo de pessoa que reclama da taxa de três reais de entrega paga ao motoboy ou que, em restaurantes, exige falar com o gerente diante de qualquer imprevisto.

Luan, o protagonista do filme, é negro, assim como a maioria dos prestadores de serviço de aplicativos. Diogo Leite, ao apresentar o seu curta antes da exibição, o dedicou, merecidamente, a todos os entregadores que compuseram a linha de frente no enfrentamento do coronavírus. Para essas pessoas, ficar em casa nunca foi uma opção. Em uma sequência de cenas de apenas dois dias de trabalho, o personagem principal é afrontado pelo racismo que mata e pelo racismo estruturado sob o verniz da tolerância forçada, aquele mesmo vocalizado pelo pai que diz não ver problema em ter a filha namorando com um negro, mas que já segurou a carteira com mais força ao se deparar com um na rua ou supôs que a mulher de cabelo afro fosse a copeira e, impaciente, lhe pediu um café. “Você tem olhos tristes” escancara a necessidade do olhar para dentro e da mudança para fora.

Em uma das cenas mais simbólicas do curta, Luan é confrontado por um pedido que parte da tia de sua namorada. Fica claro o pré-julgamento que a mulher faz do rapaz. Tal solicitação certamente não aconteceria se o par da moça fosse branco. Como disse o ator argentino Ricardo Darín em uma entrevista que ficou célebre, por que o norte-americano é o maior consumidor de cocaína do mundo, mas na hora de retratar o traficante em um filme, escala um latino para o papel?

O curta de Diogo Leite já pode ser considerado um marco do cinema social brasileiro ao expor, de forma direta e sem rodeios, a crueldade de um sistema que ao invés de ensinar a pescar, rouba a vara, polui o rio, come os peixes e ainda te culpa por não limpar todos os espinhos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *