Trabalho demais, tempo de menos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Duas questões conflituosas são despertadas nos espectadores sobre o novo filme de Ken Loach, que carrega no currículo duas Palma de Ouro (por “Ventos da Liberdade” e “Eu, Daniel Blake”) e que se configura como um dos principais representantes do cinema social: terá o realizador sucumbido à sensibilidade açucarada do novo mundo atual ou a obra em questão aqui é apenas uma nova possibilidade de ampliar seu cinema e suavizar temas anteriores? Vamos por partes!

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019, “Sorry We Missed You” em um primeiro momento, nós não sentimos que esta seja uma obra característica kenloachiana, pela imersão do agir sem a resposta do reagir, mais ingênuo e focado nas consequências sentimentais de uma família envolta na luta diária do sobreviver com o trabalho desenhado como quase escravo, e fornecer um suporte digno ao ambiente em que vivem.

O pai precisa trabalhar mais de quatorze horas sendo autônomo, contudo precisa prestar contas e impossíveis prazos (para entregar os produtos) ao representante chefe da franquia – uma estratégia que o detentor da marca cede ao franquiado a autorização para explorar a marca (“Sorry We Missed You” é o slogan, com seus equipamentos “preciosos e caros”); a mãe cuida de idosos mimados e carentes que a requisitam nos horários mais improváveis; o filho torna-se rebelde; e a única que se salva dentro desse universo disfuncional é a filha. O longa-metragem busca inserir o público na arquitetura agenda deles.

A narrativa direta e contemplativa (empregando estrutura documental na ficção – câmera próxima para intensificar a proximidade com as personagens agitados e imediatistas, é observadora), principalmente por seus diálogos coloquiais (condensados de detalhes burocráticos e regras imutáveis e reações desesperadas à raiva-desespero. O conflito é apresentado logo no início e desenvolvido por instantes próximos em elipse.

“Sorry We Missed You” é uma crítica ao sistema social, que engessa, estressa e se expressa por um humor impaciente e irritante (como a competição de futebol). Eles sentem prazer em discutir. Faz parte de suas inerências. É o hooliganismo (comportamento destrutivo e desregrado).

As questões abordadas acima podem talvez encontrar respostas se analisarmos que o mundo mudou. Não mais urgente e sim elétrico. As pessoas não “dão a mínima” e as “ideologias em prática” foram substituídas por máquinas alienantes, que passam a falsa sensação de integral conectividade. Pois é, mas na verdade todos estão sozinhos na coletividade. Não há mais união, porque “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

O público entende a mensagem simbólica da luta social. Porém, “Sorry We Missed You” é aquele típico filme “too much”, querendo abordar problemas potencializados demais, tentando abraçar o mundo com apenas dois braços. Ken Loach talvez não tenha se dado conta que seu redor transformou-se em algo confuso: menos sensibilidade para lidar com o que realmente importa e mais dramaticidade em expressar sentimentos. Será talvez que os humanos tenham retrocedido ao primitivo de suas emoções?

Assim, o filme perde ritmo e embarca em um afoito e desesperado turbilhão melodramático, ingênuo e de inocência vulnerável. É o uso da “pimenta forte que separa homens de meninos”. Cada um da família precisa aprender a lidar com seus problemas, limitações e dificuldades, mas nenhum deles está preparado, tampouco foi ensinado para isso. É o que se brinca que o mundo sofre com o pós “Merthiolate” (remédio que agora não dói mais). Não há mais punição para delitos. E a dor, um tabu que deve ser escondido de seus filhos. Talvez o discurso tenha ficado datado e ultrapassado em seu tratamento.

“Sorry We Missed You” é objetivamente é um filme simples. De analisar o social perante a sociedade em um estudo de caso didático e de transcorrência genérica. O roteiro de Paul Laverty (de quase todos do Ken Loach) segue essa resolução a partir da premissa de suas palavras oficiais no release recebido pela imprensa: “Eu encontrei meu bloco de notas e em um página tinha uma questão: E se nós tivéssemos uma família que dormisse na mesma casa; eles estão apenas a poucos passos de cada um, mas eles dificilmente se vêem”.

E seu realizador complementa e finaliza: “Este é um novo caso de exploração: a casual força de trabalho continua”. Concluindo, “Sorry We Missed You” não é em ruim, apenas um foco diferenciado e mais sentimental.

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