Vivir Ilesos

De nenhum lugar a lugar nenhum

Por Vinicius Machado

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Ao optar por valorizar o cinema nacional em sua 43ª edição, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega, também, pronta para reforçar o segmento latino-americano. Além das tradicionais produções argentinas e mexicanas, há também a participação de películas vindas da Colômbia, República Dominicana, Uruguai, Chile, Equador, Venezuela e Peru. E embora os olhos do mundo não estejam virados para esses países cinematograficamente falando, é possível encontrar algumas produções que valham o ingresso.

Porém, é capaz do espectador, nessa jornada de garimpagem, acabar encontrando alguns deslizes, como é o caso da produção peruana, “Vivir Ilesos”, escrito e dirigido por Manuel Siles.

Sem muitas apresentações, o filme vai direto ao ponto, logo nos primeiros minutos. O casal é sequestrado pelo milionário e a mulher é mantida em cativeiro, enquanto seu noivo busca uma forma de resgatá-la.

Apesar de ter um plot um tanto quanto interessante e se vender como um thriller psicológico, a impressão é de que o filme busca a todo tempo encontrar sua verdadeira identidade sem muito sucesso. No início, há certa expectativa de uma trama envolvente sobre a vítima e seu sequestrador, interpretado por Renato Gianoli, sempre de fala mansa, fria e calculista. Depois, a trama se vira para Alberto (Oscar Ludeña) no que parece ser uma busca incessante pela noiva e, mais adiante, torna-se um longa cuja intenção é refletir sobre o sentido da vida. Tudo isso em pouco mais de 70 minutos.

Em uma cena, por exemplo, Alberto comenta sobre como seus golpes servem de oposição ao sistema e como as pessoas se rendem a ele facilmente. Ao mesmo tempo, há o conflito da protagonista entre se manter em uma vida de luxo ou fugir de volta a sua rotina de golpes, retratando a contradição entre aceitar o sistema ou se corromper.  “Vivir Ilesos” é uma visão atraente sobre oportunidades e economia social, mas que não se aprofunda, sendo, assim, apenas sequências isoladas e completamente rasas.

Por percepção inevitavelmente óbvia, o que se propõe, não consegue ser desenvolvido, por causa de sua pressa. Tudo acontece muito rápido. O filme acaba ganhando ares de grande incógnita, há problemas de ritmo e fotografia, provavelmente pela falta de recursos. Os planos são um exemplo, quase sempre abertos e com a câmera estática repetidas vezes.

É como se Siles deixasse uma câmera no tripé e não a dirigisse, fazendo com que a cena aconteça por si só, sem muita dinâmica, com personagens de costas para ela e uma mixagem de som que parece dublada. Depois, quando ele tenta outros enquadramentos mais aproximados, as expressões se mostram novelescas.

O diretor tenta explorar outros núcleos do elenco, mas falha ao encaixar dentro do enredo. A cena de um dos seguranças do sequestrador dá a entender que ele pode vir a ter uma função mais ativa na trama, mas isso nunca acontece. O delegado, a vendedora do bar e a mãe de Lúcia são outros que aparecem deslocados e inexpressivos. Para cada um deles, o diretor parece ter tido uma ideia e desistido no meio do caminho.

Lúcia, interpretada pelo nome mais conhecido do elenco, Magaly Solier, entrega o trabalho mais competente. Sua ambiguidade de atuação e, também de evolução, dentro do enredo, ajuda a tornar o filme pelo menos mais atrativo, se é que isso é possível. Ela consegue passar de uma golpista inexperiente a uma mulher de jogo de cintura para lidar com seu sequestrador, tendo tato suficiente para conseguir aquilo que quer. No entanto, mais uma vez as sequências, como a em que ela tem a posse de uma arma numa conversa com seu algoz, não são o suficiente pra deixar a ideia clara.

Ao gerar uma expectativa de um desfecho violento ou vingativo, ele desanima o público, entregando algo com pouca conexão à sua proposta inicial de gerar alguma reflexão sobre o sentido da vida, de acordo com o contexto filosófico que (não) se desenvolve ao longo da trama. Tudo é tão insuficiente que é preciso dar voltas e mais voltas para defender a coerência de algo tão irregular.

Por fim, “Vivir Ilesos” perde-se na inexperiência de seu diretor e na falta de recursos para executar um bom trabalho. Um filme que começa prometendo uma trama intensa de suspense e acaba saindo da sala com uma tentativa rasa de abordar conflitos sociais e filosóficos num final completamente anticlimático. Seria possível até atribuir isso ao pouco tempo de duração, mas, infelizmente, é um roteiro que desde o início não sabe bem o que quer e por consequência disso não caminha para lugar algum.

 

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