Vidas (in)visíveis – Um Arsenal de Esperança

Entre a direção: Festival e filme

Por Vitor Velloso

“Vidas (in)visíveis – um arsenal de esperança” de Erica Bernardini é um documentário que parece explicitar algo que vem se tornando sintomático no Brasil, a exibição e circulação de trabalhos quase institucionais que buscam contar a história de algo ou de um projeto. Aqui, o filme quer registrar o trabalho feito em São Paulo, no Arsenal da Esperança, projeto que salva a vida de milhares de pessoas na capital financeira do país.

A questão está diretamente na linguagem que é utilizada, dando o tom de um institucional que recebeu espaço para exibição no mercado nacional. O longa parece estar querendo fazer uma propaganda do projeto, não contando sua história. É uma espécie de elevação do trabalho ali feito, para que possamos propagar as boas atitudes que o cristianismo é capaz de pregar. Se por um lado, não se torna evangelizador e nos coloca diante dos dogmas religiosos, não nos força a isso por estar constantemente celebrando sua vocação à solidariedade e como isso é a máxima representação desse cristianismo que migra de Turim à São Paulo. Essa solidariedade que encontra força no trabalho voluntário, na ajuda mútua, é a própria ferramenta de aproximação com a base religiosa.

O filme transita entre a exposição e o didatismo de um projeto institucional, fazendo com que essa moral se torne a ética de convivência em dificuldades tão drásticas. Contudo, parece buscar bases em conservadorismos nas representações de depoimentos, textos que aparecem nas telas e todo um jogo de repetição de informação que se torna cansativo e apenas reforça o tom institucional, sempre recorrendo à montagem com fades e recortes mais imediatos. “Vidas (in)visíveis – um arsenal de esperança” possui similaridades com diversos outros documentários de característica parecida e insiste nas músicas constantes para que possamos compreender o “espírito” que norteia todo aquele projeto de solidariedades múltiplas. Esse conluio com uma formalização do documentário mais que expositivo e mimético, vêm se tornando uma tônica em distribuições de streaming etc.

O que torna a obra brevemente diferente das demais, é sua produção em período pandêmico, que conta como o local vem se articulando para proteger a vida de mais de mil pessoas ali presentes. É, novamente, onde o longa encontra um novo campo para construir os méritos do Arsenal diante da realidade nacional. E esse problema encontra uma nova fonte em cada “esquina” que cruzamos durante os sessenta minutos de “projeção” pois cada nova escolha formal é feita para conscientizar o espectador do bom trabalho ali feito. Ou seja, o tom institucional se torna redundante e alienante diante da realidade material de todas aquelas vidas e políticas envolvidas. Não possuímos grandes informações de como essa história se constrói economicamente, politicamente e socialmente, temos apenas a exposição informativa de como o projeto funciona em prol daquelas pessoas. Até para um institucional algumas informações necessária para a compreensão geral, deixa a desejar.

Creio que seja necessário relembrar que a crítica presente diz respeito única e exclusivamente ao filme, não ao Arsenal da Esperança em si.

Com isso, o espectador pode estar esperando uma base histórica e política da inserção do Arsenal na vida de São Paulo, mas recebe essa mesma solidariedade que retrata, ao tornar toda sua representação uma formalização desse conteúdo propagandístico. “Vidas (in)visíveis – um arsenal de esperança” é a relação entre essa forma cinematográfica e as bases de uma moral cristã que recusa a construção materialista de seu conteúdo e alia-se aos conservadorismos latentes que estão presentes nos projetos encabeçados pela burguesia brasileira.

Aqui, deve ser feita outra intervenção. O leitor desatento pode interpretar de maneira errônea que chamo os envolvidos de burgueses (como aconteceu recentemente). Contudo, deve ser lido com cautela antes de criar julgamentos tacanhos e preguiçosos. Não se trata de apontar o dedo e denominar cada um, me refiro constantemente aos interesses de uma burguesia, que são correspondidos pelas formas de produção e representação. São coisas distintas.

Por fim, o doc-institucional que chega ao mercado brasileiro, “Vidas (in)visíveis – um arsenal de esperança” pode ser rotulado como tal, por estar alinhado com todas os maneirismos do “sub-gênero”, mas  é eficiente em apresentar uma história que muitos desconhecem e não intensifica os esforços de catequização constante. Porém, dificilmente o espectador levará o projeto na memória. Uma pena, havia muito material para prolongar a experiência.

Trailer

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