Cracolândia

Panfleto intencional

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2020

Nos primeiros minutos de “Cracolândia” de Edu Felistoque deixa-se claro que devemos discutir e debater sobre o problema das cracolândias brasileiras, paulistas, e que a negação disso é a perpetuação do problema. É possível concordar em absoluto com essa frase. Mas não demora muito, o filme-panfleto roteirizado por Heni Ozi Cukier, mostra toda sua virulência e torna-se a propaganda do “norte-americano brasileiro”, de bandeiras ideológicas questionáveis.

Está certo que trata-se de uma crítica do documentário, porém será necessário criar algumas interseções com a política contemporânea, aliás a obra está absolutamente direcionada à autopromoção. Dizer o contrário seria uma pataquada, tacanha, para se dizer o mínimo. Afinal o roteirista protagoniza a obra e expõe as entranhas do vexame neoliberal. Nesta perspectiva, o filme não se acovarda diante de uma abordagem explicitamente partidária, reforça isso de forma cirúrgica, detém o domínio da montagem e assim desmoraliza determinados entrevistados e exalta a fala de outros. Até certo ponto, o longa é funcional na exposição do problema e consegue gerar o debate, mas acaba acentuando excessivamente o caráter panfletário. Seu maior problema é investir nessa caricatura de apresentação, como quem tenta refletir um estilo de vida, uma padronização intelectual. Os planos próximos aos livros, a pesquisa “totalizante” nos países de primeiro mundo (um erro comum da classe burguesa), o terninho engomado e toda aquela postura de quem é dominante no enquadramento. 

É uma espécie de coaching de debate sobre “Cracolândia”, não uma análise crítica em si. Ainda que se porte como tal, não é muito convincente assistir um longa que apresenta seus entrevistados e o próprio título em inglês. O neoliberalismo não difere muito dessa postura, a burguesia segue o caminho que lhe convém, mas é claro, atacando sempre que pode os lados extremos do debate. O muro é o novo lugar. As resoluções estão no exterior, nos exemplos, e o filme segue à risca o modelo institucional de produção cinematográfica. Em determinados momentos o espectador aguarda uma propaganda política clássica, querendo entender quem é o candidato. Mas o modelo tá todo ali, ataca os prefeitos anteriores (com datas), está presente no “campo de batalha” (engomado, com uma gopro e um iphone para mostrar seu equipamento), filma tudo do alto do prédio (pela própria segurança) e apresenta as soluções (só para quem é alfabetizado, porque as falas são em inglês e precisamos ler as legendas). 

Uma campanha típica de quem quer apresentar o “novo” modelo de fazer política. Carece de ritmo, debate crítico e apenas parte dos axiomas clássicos da refrega política e ideológica. A velha dialética do pensamento é reprimida em tom vexaminoso pelos planos vulgares. E aqui cabe ressaltar que “Missão 115” não é diferente neste ponto, para que fique claro aos leitores reacionários de todos os tipos. Se a montagem inicialmente propõe o debate acerca das ações a serem tomadas nas cracolândias, com a progressão do documentário fica claro que estamos diante de mais um projeto intencionalmente direcionado à atacar e seccionar parte da refrega ideológica acerca do assunto. Ainda que seja possível o diálogo, o longa não parece muito aberto às possibilidades de se despir dos ataques políticos aos governos para debater medidas públicas viáveis, mas sim de gerar um fomento à questões particulares, privadas, que poderiam ser aplicadas com dinheiro público. Não à toa, suas viagens procuram por soluções específicas, absolutamente fora da realidade brasileira, onde o tom lúdico da burguesia se torna objeto estupefato diante dos avanços civilizatórios do neoliberalismo. 

“Cracolândia” é um filme-panfleto que está mais preocupado com a (auto)promoção e se torna um filme institucional para a análise acrítica da materialidade que está inerente ao debate acerca do problema. É mais que salubridade ou segurança, é uma questão social que deveria ser debatida em meios que compreendam uma análise totalizante do problema, uma verve que falta de forma grave no documentário. Não dá pra explicar a escolha do filme para compor a “Mostra Brasil” na Mostra de São Paulo deste ano. 

É ano de eleição, uma tentativa de reformular a política está nos horizontes. Com dados podemos gerar as informações, a partir daí o debate. Por ora, a curiosidade.

Trailer

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