Verlust

Desejos e a manutenção

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2020

Dentro das tendências cinematográficas que o país segue, “Verlust” é um projeto com todas as características de quem mira os louros da elite intelectual do país, mira uma transa de Malick com Khouri e acerta um ansiolítico burguês dos mais agudos. 

O filme de Esmir Filho tenta construir em suas articulações dramáticas, uma tônica minimamente favorável para as múltiplas questões que o filme busca abarcar, sempre com o tom corriqueiro do pragmatismo político imediatista, ou seja, o velho desejo burguês de deslocar-se da realidade para que suas liberdades individuais, travestidas de coletivas, sejam debatidas em um plano suspenso. Nada funciona no filme, desde suas investidas à normatividade cristã ao arquétipo de “high society” que tenta criar. As pretensões são tão frágeis que tudo se torna falso, não apenas aquele projeto de sociedade ali exposto, mas a própria obra. Andréa Beltrão parece desconfortável no papel. O filme parece envergonhado. Nenhuma das pautas políticas levantadas ultrapassa um diálogo expositivo absolutamente passageiro. 

A superfície é um lugar longe para a representação burguesa, os fundos são sempre a recorrência máxima da produção intelectual classista, ou melhor, classuda. É o problema de deter o projetor e a sala de cinema, os negócios são revirados para uma produção que se localiza única e exclusivamente na massagem de ego. Como dito, uma tentativa fálica, e fúnebre, de alcançar um Malick e sua tríade de representações, que está amplamente ancorada na dependência de um liberalismo fajuto. É a recusa da matéria para alçarmos, sempre, as individualidades, os tabus, o sexo, a sacanagem, é o anti-Nelson Rodrigues. É a reprodutibilidade de consciência burguesa enquanto deleite particular de automasturbação. O privado é a última tendência midiática, afinal, é a classe artística, a intelectualidade, a nata burguesa que não desce da calçada da fama. “Verlust” é tudo aquilo que denuncia. É a miséria intelectual, é a falência da moral burguesa, a decadência dogmática da classe dominante. 

É o “Domingo” da High Society de apartamentos e eventos. O luxo da linguagem como uma emulação de rodeios estéticos, uma tentativa de devaneios e transas se contrapondo à câmera fixa e os cortes pragmáticos do restante. O eterno dilema da burguesia, se render ao estóico onipresente ou aos delírios que buscam emular algum estilo europeu ou norte-americano. Como problemática máxima, temos um resultado misto e dúbio entre a política brasileira contemporânea que é incapaz de decidir-se nos campos progressista ou reacionário. Está claro que ao longo dos anos o cinema brasileiro se aproximou das duas frentes como quem quer alcançar o epitáfio da decadência revisionista em tentativa de tom conciliatório.  

“Os sistemas culturais atuantes, de direita e de esquerda, estão presos a uma razão conservadora. O fracasso das esquerdas no Brasil é resultado deste vício colonizador. A direita pensa segundo a razão da ordem e do desenvolvimento. A tecnologia é ideal medíocre de um poder que não tem outra ideologia senão o domínio do homem pelo consumo. As respostas da esquerda, exemplifico outra vez no Brasil, foram paternalistas em relação ao tema central dos conflitos políticos: as massas pobres. O Povo é o mito da burguesia. A razão do povo se converte na razão da burguesia sobre o povo.” Eztetyka do Sonho, Glauber Rocha. 

A denúncia de Glauber segue atual, assim como “Idade da Terra” tipifica que a razão ideológica, em um condicionamento subdesenvolvido só pode ser medida através da síntese dialética. É a chave para compreender a produção cinematográfica contemporânea, pois a detenção do poder autoral com a burguesia, remeteu um completo domínio dos meios de produção intelectual de maneira equivalente. Ou seja, não é possível consolidar uma mudança drástica nas obras, através dessa produção, pois essa verve progressista visa apenas manter-se no poder. E se a divagação aparece como situação para o leitor, basta apenas lembrar-mos que a criação material enquanto feitura semi-paródica da realidade, é o lastro absoluto que nos secciona do montante latino-americano. Não à toa, o realismo fantástico segue como tom de maturidade na assimilação cultural latina e no Brasil é visto como protótipo de visão acrítica. 

Ainda que “Verlust” não vá por este caminho, faz parte da mesma família subsequente e é fruto de um triste destino traçado pela idealização de uma revolução cultural. 

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