Vacío

Vazio cheio (até demais)

Por Ciro Araujo

Durante o Festival Cine Ceará 2021

Vacío

Em uma constância de inserção global, o cinema vem cada vez mais recebendo colaborações múltipla de culturas distintas que se colidem. “Vacío”, filme de Paúl Venegas, é um reflexo de mãos distintas que se colidem através da produção de um enredo de discordâncias e similaridades e a captura desse modo. Colidir, neste caso, de forma negativa, pois o filme é constantemente impactado por tantas decisões que, à procura de uma palavra melhor, a melhor resulta em apenas definir como decisões ruins.

Existem formalistas que acreditam que uma direção é em bom controle. A resposta pode ser sempre a mais centrista possível, isto é, a famosa “depende”. Há aqueles que desejam simplesmente quebrar, no mais estrito sentido da palavra, o filme. No cinema produzido por Paúl, o cineasta encontrou fortes influências vindas do oriente. Não apenas claro, seu corpo de atores, como também em temas. O cinema destruidor de Hong Kong, aquele mais livre; O cinema do que é a modernização chinesa, de Jia Zhangke. Seja como deseje, o diretor compreendeu que ali existiam interesses muito formidáveis para se deixar passar e, portanto, esquecer de se filmar. “Vacío”, é, por muitas vezes, uma produção de antônimos, uma vez que de forma alguma ele se deixa ser vazio. Pelo contrário, existe muito combustível para ser queimado no que procura ao menos falar sobre, numa dinâmica cultural que se baseia muito na perda de tradução e encontro da própria. Uma trama mafiosa, logo dentro de si, anseios migratórios. São tantos temas, simplesmente espalhados que evidenciariam uma liberdade influenciada pela cultura do país-estado. O que acaba ricocheteando, por simplesmente não possuir força alguma a expressão do autor. Um texto, pelo que chamam, de jogado, produzido a céu aberto sem ajuste algum.

A inaptidão do diretor é melhor representada na dinâmica entre o elenco. Simplesmente espalhados, os atores agem como se estivessem em diferentes universos. A falta da direção é grande, todos caminham em direções opostas. Exemplificando, certos momentos formam a dramaticidade necessária, em outros existem por puro prazer de alongamento do filme. É uma produção de momentum que não se produz para criar um clímax. Acaba virando apenas uma obra pobre, com a lentidão antítese do interessante. Engraçado, já que anteriormente existia uma clara relação aos dois cineastas chineses, mas que agora, também se perde. Ambos possuem um dinamismo que seria canalhice até querer comparar, mas de que adianta se a clara influência está ali? O filme é muito mais um trabalho (ou tentativa, quem escolhe é o espectador) de produzir uma ficção capaz. Inclusive, o longa-metragem foi escolhido pelo Equador para representar seu país no Oscar, o que realmente representa muito sua força como linguagem ficcional.

O que mais interessa a Paúl em sua própria obra é na realidade a costura de uma interrelação que ele vê da Ásia com a América Latina. As origens, além das históricas, realmente são interessantes e ricas, se entrelaçam como natural. E esse olhar é o que mais se destaca para o cineasta. Se existe uma conexão forte, porque não se aproveitar dela? Aqueles formalistas sempre se interessam pelo controle, mas e pelo diretor que se aproveita de imagens certeiras? A dramatização que de nada tem, consegue criar um link certeiro de duas culturas. Novamente, essa coisa de culturas distintas e múltiplas, mundo globalizado. E é uma obra que se encontra bem aí, em uma espécie de jogo de relações. Escutar e falar inglês, espanhol, cantonês ou chinês. Se antes existisse realmente uma visão tão interessante, um gosto pelo mover da câmera. Bem, a dramaturgia aqui é pobre, pouco honesta ou exploradora.

De qualquer forma, o que foi encontrado é um interesse em listar os acontecimentos, mas não de guiar e preencher os entreatos. Antes fossem apenas frases de efeito, mas a eficiência não chega perto disso. A passos de tartaruga, o filme de Venegas deseja possuir uma forma, mas que não logra, muito ansioso pelo desfecho, pelas marcações no roteiro. A palavra chave realmente gira em acontecimentos, portanto. E ao fim, “Vacío” apenas gera um vazio, uma circulação de temas já tão dramatizados, sem a delicadeza necessária. É um filme de muitas ânsias e poucos resultados, uma verdadeira inaptidão linguística longe daquele objetivo inicial de “livre”.

Trailer

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