Utopia, Distopia

O legado e a memória

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

A relação que as pessoas possuem com Brasília jamais são ordinárias. É possível falar em histórias diversas de quem já visitou a capital. Eu, detesto. E são inúmeras as razões para isso, minha curta estadia foi um inferno sem fim. Dito isso, “Utopia, Distopia” não trata como tema central a cidade, mas compreende que a UnB possui força fundamental no trato da História da capital. 

Jorge Bodanzky, a lenda, assina a direção e faz um documentário que vai tratar dos pontos materiais dessa história tão rica que é encabeçada por Darcy Ribeiro, que contou com a presença dos maiores nomes da história do Brasil, de Niemeyer à Paulo Emílio. A Universidade aqui é como a cordilheira em “Cordilheira dos Sonhos” que abriu o festival, é o monumento que viu grande parte da História ao seu redor se transformar e manteve sua estrutura, com inúmeras reelaborações políticas e de gestão. O filme vai compreender o olhar material através de imagens de arquivo, depoimentos e o relato do próprio diretor de frente para a câmera. A base vai se multiplicando de acordo com suas arestas políticas enquanto soma as necessidades de retrato. 

São fotos debatidas, vídeos e a longínqua refrega que se instalou no campus. Isso na necessidade de integrar os alunos como parte desse ambiente, ajudando a compor seu funcionamento em todas as frentes. Não à toa, é comum reconhecer a instituição como uma frente no debate político, pois seus integrantes não se seccionam às funções mais ortodoxas. O ensino é parte da construção de uma utopia, mas não é seu fim. E essa consagração dos objetos históricos como uma estrutura particular que funciona em êxtase de mudanças no planalto, que inclui o golpe de 64, está exposta já na arquitetura do projeto. Que abre seus espaços para o terreno da cidade, tornando o organismo funcional nesse sonho burguês da organicidade. Mas Bodanzky não recusa o materialismo em sua análise. Põe trechos de “Fala Brasília” de Nelson Pereira dos Santos, para explicitar que a cidade é um antro de sociedade privada da realidade brasileira em si. 

É um reduto que se constrói através desse “piloto” e segrega a população às cidades satélites. E aqui devo dizer que enquanto estava em Brasília, conversei com um moço que vendia pastel próximo ao estádio Mané Garrincha. O mesmo dizia para mim que o trajeto de sua morada até a capital não era fácil, um trânsito descomunal lhe impedia o fluxo comum, que a vida ali não era nada acessível e que as desigualdades eram latentes, pois quem se permite morar nessa utopia, possui o poder. E aqui “Utopia, Distopia”, acaba tratando o assunto de maneira atravessada, pois apresenta a relação materialista inerente ao pensamento da união cidade x universidade, mas parece se ater tanto ao sonho que concretizou essa monumental disparidade no trato histórico do local. Assim, seus objetos de compreensão passam a ser diluídos e espalhados na obra, o ritmo cai gravemente e o foco vai se perdendo como a História da capital brasileira. 

Salvo alguns depoimentos de ex-estudantes e ex-alunos, o documentário passa a criar uma imagem de adoração dessa utopia, torna-se burocrático na verve de tornar o debate a base materialista das relações que se construíram ao longo do século. O recurso da análise do projeto da UnB, em sua gênese, que se inicia como fetiche da obra, ganha corpo e se torna eixos de discussão repentina. Em determinados momentos retorna ao segundo plano e passa a oscilar durante o filme. A montagem acaba fragilizando o projeto por não ser incisiva na proposição que é iniciada, o floreio da narrativa, reforça o poder da burguesia diante da cidade. Ainda que a Universidade tenha sido construída em torno de pontos divergentes da sociedade, o que vemos hoje é um antro deslocado politicamente e ideologicamente do montante. E talvez esse seja o espírito que o filme acaba incorporando de maneira pouco prática. 

As sucessivas tentativas de relacionar as diferentes gerações em “Utopia, Distopia” são absolutamente bem-vindas, mas não passam de um dos eixos que o filme não consegue corroborar na crítica que pretende fazer. O mais próximo que chega do mesmo, vêm de uma fala de Vladimir Carvalho, mas ainda assim, a nostalgia toma conta da análise.

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