A Cordilheira dos Sonhos

À procura do dentro

Por Fabricio Duque

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

Vencedor do prêmio Olho de Ouro de melhor documentário no Festival de Cannes 2019, “A Cordilheira dos Sonhos”, que abre a edição online do 25o Festival É Tudo Verdade, é o que chamamos de filme-poesia. Uma película chilena de luta política pelo existencialismo das origens. A Cordilheira dos Andes é a metáfora do sonho. O mistério. O contêiner que guarda memórias, antepassados e a própria cultura. O labirinto que desnorteia o visitante, ainda que parte integrante deste “extenso pedaço” (representada por oitenta porcento do país). Seu diretor Patricio Guzmán é um pintor que  filma (e permite) concretude visual ao invisível. Nós somos conduzidos por dois tempos e dois espaços: o do silêncio de reencontro com as raízes e a do mundo de seres humanos sempre com pressa e sem permissões ao lembrar (verbo este que cada vez se torna mais obsoleto, ultrapassado e fora de tom), em correrias passageiras dos subsolos do metrô. Tudo é costurado por uma narrativa sensorial etérea, de epifania-transe quase litúrgica.

“A Cordilheira dos Sonhos” é o terceiro filme da trilogia (que transformou a perspectiva de seu realizador), iniciada dez anos antes com “A Nostalgia da Luz” (o Norte) e “O Botão de Pérola” (o Sul). “Em meu país, a Cordilheira está em todo lugar, mas para os cidadãos chilenos, é um território desconhecido”, disse Guzmán em Cannes sobre “explorar os mistérios e as revelações da história presente e passada do Chile” desta “imensa coluna” (“um imenso território chileno que não é chileno, porque ninguém pode viver ali sem autorização”), visto que seus documentários  sempre foram usados para desencadear controversas, porque “lidam com os tiros de Pinochet”. A naturalidade da imagem é também esculpida pela música (que soa como uma máscara esperançosa em um já resignado pessimismo), pela fala de seus personagens e pela narração (de pessoalidade orgânica quase imparcial – quase estrangeira). “Toda vez que passo por cima da Cordilheira, eu sinto que estou chegando no país da minha infância e de minhas origens. Isso é irreal. Na juventude, não senti curiosidade nenhuma pelos Andes. A Cordilheira não era revolucionária”, diz-se com cadência, ritmo, emoção dosada e “distância”. A câmera, metafísica, acompanha, voa e atravessa, entre fusões de imagens, que potencializam a metáfora do esquecimento (a de que o hoje precisa apagar as tragédias do antes para “ressignificar” o futuro), e a sinestesia da captação dos ventos. Por ângulos futuristas de drones, que remetem a uma ficção científica pós-apocalíptica pela arquitetura bruta.

O documentário assopra com suavidade landscape para adentrar no terror das lembranças. Se a Cordilheira “separa e protege” do mundo lá fora, com suas dimensões de “largura e comprimento”, como se fosse “uma caixa de fósforos que você se empina e vê a Argentina”. Por depoentes, em destaque aos escultores Francisco Gazitúa e Vicente Gajardo, ao escritor Jorge Baradit e ao cineasta Pablo Salas  (que filmou durante 37 anos ininterruptamente, cujas imagens arquivo – captando os atos de violência não “humana” – são intercaladas aqui a fim de expor a verdade), Patricio Guzmán, que levou 46 anos sem retornar ao Chile “filmando de fora à distância” (este é sua primeira “de dentro”), reedita a História. “Nunca imaginei que a Batalha do Chile se manteria como um reflexo de um passado que eu me persegue”, narra-se.

É preciso que o tema das imagens de Pablo volte ao foco aqui. Porque os pais não contaram a seus filhos para a protegê-los, à moda de “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni. Mas será que essa decisão foi a melhor opção? Isso não pode ter ajudado no processo o pagamento da memória? Não há resposta. Mas podemos ter um caminho quando assistimos ao material do cinegrafista, que filmou a memória real. As cenas, sobre “o pior momento é o melhor, porque é mais limpo”, sem a passividade  do assistir que acaba criando a padronização do ordinário, causam um impacto de choque e de conflito, devido a violência empregada (real demais para qualquer ser) e nossa contestação social de admirar a coragem daqueles que lutam e de nossa covardia em aceitar os “erros horrores”, entre protestos, triângulos,  e “elegantes” paradas militares, marcando assim a mesma utopia de morte e de vida. E quando a imagem muda para a Cordilheira, mesmo com a narração – aumentada em sua coloquial dramaticidade poética – sobre as atrocidades ditadura que via indivíduos como “canceres”, nós nos sentimos aliviados e protegidos de não mais precisar assistir à barbárie.

Sim, “a montanha é uma testemunha”. Viu quieta e silenciosa o “golpe de Estado com seu modelo neoliberal – uma ideia de rentabilidade da própria vida”. “Eu sou daqui. Eu vou ter que aguentar, porque não quero imigrar para Argentina ou Brasil”, diz Pablo, que construiu “um tesouro frágil, mas extraordinário, mantendo intacto os rostos da resistência popular e conseguindo provar que o passado não passou”. Uma “memória do futuro”, de 11 de setembro de 1973, que imediatamente nos leva à data da tragédia americana. Será que só os meteoritos, “pequenos planetas que caem do céu”, podem nos ajudar a realizar o pedido de seu diretor para “que o Chile reconstrua a infância e sua alegria”? Por que ainda ainda vivemos no mundo “A Batalha do Chile”? Será que Schopenhauer estava certo e o universo é mesmo um pêndulo”? Sim, esta crítica de “A Cordilheira dos Sonhos” terminará com esse final aberto de Continua…

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