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Undine

Se você me deixar, vou ter que te matar

Por João Lanari Bo

Festival de Berlim 2020

Undine

“Undine”, realizado por Christian Petzold em 2020, pode até decepcionar admiradores do cineasta, um dos melhores, senão o melhor, em atividade na Alemanha. Seus longas mais recentes, “Em trânsito” (2018), “Fênix” (2014) e “Barbara” (2012), conformam uma trilogia, se entendermos o termo em sua acepção básica – no teatro da antiga Grécia (sempre a Grécia…), trilogia era um poema dramático composto de três tragédias, que devem ser representadas juntas; por extensão, na literatura e cinema, é um grupo de três obras, teatrais ou não, unidas entre si por temática comum. O núcleo traumático desses três filmes é a Segunda Guerra Mundial, et pour cause, em se tratando de um artista alemão, culto e refinado. Os personagens variam, mas de alguma forma ressentem-se das reverberações da guerra, mesmo se historicamente posterior, como em “Barbara”, que toca no clima paranóico da Alemanha Oriental na Guerra Fria (afinal, continuação da 2ª Guerra). Na produção em tela de 2020, uma história trágica-romântica de fantasmas, aquática e superficial, as referências históricas estão lá: Undine, encarnada, ou melhor, espiritualizada esplendidamente pela atriz Paula Beer, é uma aparição do fundo do lago, carente de afeto como uma sereia, obsessiva e ciumenta – e é também, na superfície do real, uma historiadora free lancer, que ganha a vida em palestras para turistas interessados na história de Berlim, sua evolução urbanística, os impactos da guerra, a divisão entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental, o muro. Mesmo sem a vibração psicológica que esses eventos produziam nos personagens da trilogia, a cidade – e seus traumas – é uma presença viva para Undine.

Undine: o nome vem do latim Undina, derivado da palavra latina unda, que significa onda, termo encontrado pela primeira vez nos escritos do grande Paracelso, alquimista renascentista e médico de profissão. Em português, a palavra soa familiar: Ondina. Com a inestimável ajuda da wikipedia, sabemos com Paracelso que cada um dos quatro elementos – terra, água, ar e fogo – é habitado por diferentes categorias de espíritos, criaturas que compartilham nosso mundo – gnomos, ondinas, silfos e salamandras. São as contrapartes espirituais invisíveis da Natureza visível… muitos se assemelhando a seres humanos na forma e habitando mundos próprios, desconhecidos para o homem porque seus sentidos pouco desenvolvidos eram incapazes de funcionar além das limitações dos elementos mais grosseiros. Uma legenda medieval, ancorada na antiguidade clássica – o poeta e filósofo pré-socrático Empédocles foi o primeiro a propor que os quatro elementos eram suficientes para explicar tudo o que existe no mundo – e que foi usada à exaustão na literatura, nos contos, no teatro…até a era moderna da comunicação de massa. O “Undine” de Petzold inscreve-se nessa tradição: Undine, a personagem, ouve de seu parceiro Johannes, logo na primeira cena, que ele tem um relacionamento com outra mulher. Das imagens abertas do café berlinense, saltamos para o close de Undine, que afirma, friamente: se você me deixar, vou ter que te matar. Corte para a palestra, em cima da bela maquete de Berlim: antes que ela potencialize sua ameaça, esbarra, no mesmo café, com um mergulhador industrial, clicado naquela criatura, amor à primeira vista. Ele tenta abordá-la, mas um súbito gesto de repulsa projeta-o na estante que sustentava um aquário – a queda e a explosão do vidro provocam uma onda que encharca a ambos, e é a senha para o romance que embarcam. Um romance cheio de sutilezas obscuras e invisíveis, que levam o espírito de Undine, loucamente apaixonado, a perder o controle: mas a vida tem surpresas, mesmo para os espíritos.

Undine” inscreve-se também na tradição do filme B, essa categoria cinematográfica que juntava as produções de menor orçamento em sessões vespertinas no alucinado mercado norte-americano – e em outras paragens também, como no Japão. A mão hábil de Petzold, a composição da imagem que extrai de seus colaboradores, entretanto, eleva o produto a um nível mais sofisticado, sem negar a filiação: o uso de uma única peça de música, um piano de Bach, sugere uma economia de recursos minimalista e elegante. À diferença dos filmes da trilogia, a narrativa aqui envereda para um terreno escorregadio, cheio de armadilhas e submersa no fantasmático fundo do lago onde habitam os espíritos de Paracelso. Ao fim e ao cabo, retornamos à superfície dos humanos, onde prevalecem os dados concretos da realidade. Saiam logo da água, brada o parceiro do mergulhador, não quero pegar o engarrafamento na volta pra casa!

4 Nota do Crítico 5 1

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