Uma Máquina para Habitar

A feitura e a matéria

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2020

“Uma Máquina para Habitar” é uma obra que visa uma construção imagética em torno de Brasília, sem voltar-se à burocracia comum para isso. Acaba se tornando uma escolha sintomática na curadoria, assim como sua produção uma finalidade pragmática de discurso político atravessado.

E assim vem sendo constantemente. Com a profunda ausência de material para debate, recorre-se às obras que seguem o formalismo modal. Existe a tendência de reconhecer na hiper texturização do contemporâneo uma necessidade de se debater essa linguagem a partir disso. É uma leitura só não se completa em equívocos, pela verdadeira capacidade de traçar um encaminhamento diferente para as obras. Porém, normalmente tudo se torna apenas uma fetichização absolutista da forma, uma superficialidade tacanha do discurso, uma paralelismo político assombroso e uma falta de estrutura tão contundente que a “parodização” se torna o eixo primordial. 

A obra de Yoni Goldstein e Meredith Zielke é o olhar alienante dos processos que se constroem através da materialidade desses “mitos e poesias” que são mirados aqui. É uma questão particular do cinema internacionalizante, pois existe uma verve absolutamente centralizada em torno dessa perspectiva. Sendo essa objetiva, algo exterior, externo, recorre-se à hiper tonalização da ficção, motor retumbante do anti-materialismo, da alienação através da representação. É a síntese do pensamento acrítico, pois reconhece parte do fio Histórico como processo de degradação social, sem abrir os espaços para as causas de suas próprias representações. É a falta de espelho, em uma cidade com tantos espelhos. A burguesia se levanta para representar o desejo de uma cidade fracassada e de um país do eterno futuro, mas como o processo dialético se faz em análise, não presente aqui, a mesma classe se vê averiguando nos cafundós de Narciso suas formalizações e a produção que atravessa o “tempo” e a “matéria”.

É a produção incessante de narrativas e formas, o desvio monumental do processo latino-americano. E aqui, não podemos confundir o imaginário futurista como uma fuga imediata da matéria, mas a produção da mesma como recurso último da burguesia em salientar sua participação da “feitura” de um futuro. Tão alienante quanto a leitura burguesa de 2013, “Uma Máquina para Habitar” divaga sobre como os aparelhos reprimem as individualidades e geram novas perspectivas sociais, místicas e “cósmicas”. É a arquitetura vista pela dualidade dos progressistas lisérgicos. A leitura apressada da realidade, alienada, atravessada, delirante, divagante, inócua. É a viagem que a burguesia sonhava em fazer à capital, pois lá encontram apenas o concreto e a secura. Mas o filme trata de entregar o lado místico dos acríticos, da representação política secundária, do retrato visceral de uma classe que se centraliza na produção e quer dominar a matéria, o tempo e o espaço. “Construir”. É sempre a narrativa do progresso ou da exposição representativa. 

É uma pena que haja uma exposição a partir desse anseio burguês em torno de Brasília, pois os retratos vão se somando nas exibições em solo brasileiro, mas agora com as “experimentações” constantes da “matéria” e a construção “futurista” a partir do som e da montagem, fará com que a crítica cinematográfica burguesa, antimaterialista, autodenominada progressista, parta em defesa do filme, aliás, “é uma viagem como nunca vimos”, “uma cidade diferente da que eu conheço”. E para tanto, o ritmo do longa é sacrificado no conteúdo regularizado pelas últimas produções de pauta semelhante. Há uma narração em off para amparar o devaneio imagético e lisérgico da “realidade” da cidade, uma construção de imagens que busca uma representação fidedigna aliada à desconstrução desse “real” e, claro, uma absoluta transa internacionalizante. 

“Uma Máquina para Habitar” é um processo sintomático de um retrocesso político assombroso e de uma representação mambembe da realidade brasileira, pois além de ser “necessário” recorrer à exposições atravessadas, a popularização da base lúdica vem se firmando. O sonho burguês é dado como o concreto e o futuro, a materialização da “imatéria”, o cosmos e as energias múltiplas. Que a benção de cevada nos ajude, os diversos Brahms se aconchegam aos progressistas vulgares, teremos uma barricada de traidores e vendidos. Mas apenas para brigar da situação vivem determinados grupos. Estamos massacrados. O pássaro da eternidade não existe.

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