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Uma Baleia Pode Ser Dilacerada Como uma Escola de Samba

Todo carnaval tem seu fim 

Por Francisco Carbone

Festival de Brasília 2025; Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Uma Baleia Pode Ser Dilacerada Como uma Escola de Samba

Filipe M. Bragança e Marina Meliande formam uma dupla bem sucedida dentro do cinema brasileiro há muitos anos, mas essa parceria não é exatamente sinônimo de diálogo popular. Filmes como “A Fuga da Mulher Gorila” e “A Alegria” tem muita adesão da crítica, mas o espectador final costuma ficar incomodado com seus filmes. São títulos menos óbvios, que resvalam na experimentação por muitas vezes, e acabam perdendo essa comunicação. O novo “Uma Baleia pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba” é um aceno de seus moldes para uma ideia de popularização, que ele iniciou com “Um Animal Amarelo” e ela com “Mormaço“; agora eles tentam ampliar esse olhar, e o resultado é nunca menos que fascinante.

Como adianta o título, o universo do samba carioca é uma porta de entrada para uma leitura desconstruída do clássico de Herman Melville, “Moby Dick“. Nada é disfarçado nesse sentido, a começar pelo protagonista aqui se chamar Arrabi; no livro, temos na linha central o Capitão Ahab. O barco em questão é a direção de uma escola de samba emergente que acaba de anunciar sua falência, e mergulhar seu estado de espírito em uma espécie de crise existencial cheia de melancolia. A relação do personagem de Ítalo Martins com a narrativa como um todo é o tempo todo coroando as ações do livro transformadas em situações metafóricas por essa leitura carnavalesca, com os elementos sendo acrescentados para transmutar uma obra de cinema em um desfile da Sapucaí.

A coisa mais evidente é a duração de “Uma Baleia pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba” – 70 minutos, a duração exata que um desfile pode ter sem perder décimos na apuração. As cartelas vão revelando os quesitos tradicionais (e obrigatórios) a uma agremiação de samba, ancorando-se nos dados referenciais da obra literária. O resultado é uma obra curiosa, de tintas atraentes, e que consegue conversar com o público de uma maneira que eles não tinham ainda acessado. Isso não se dá apenas pelo carnaval que está na pauta do filme, mas por um apreço estético-narrativo que o filme consegue adentrar com méritos de sobra.

Existem olhares para tantos lugares que é capaz de uma nova assistida transforme a narrativa ainda mais, encorpando o que ainda possa ser vago, ou revelando novas camadas. O caráter de exaltação da negritude está explícito, mas sem qualquer ameaça de panfleto, como poderia ser acessado por cineastas menos hábeis. Como fala da aproximação carioca com situações envolvendo a escravidão através dos tempos, o filme apresenta as polêmicas e, acertadamente, também busca sanar tais discussões, ainda que tais lugares não sejam acessados pela verbalização, e sim pelo aspecto claro das imagens. Nesse sentido, a hipnose que Bragança e Meliande criam é ainda mais abrangente, porque está no roteiro de maneira própria, mas também é um produto cuja expressão cinematográfica é celebrada.

“Uma Baleia pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba” também é um filme que compreende inúmeros gêneros, indo do melodrama ao musical, passeando pela ficção, tudo o que está em cena não provoca incômodo ou se mostra excessivo. Vindo de uma dupla que trabalha com elementos herméticos indiscriminadamente, assusta que o filme seja tão frontal aqui, mesmo com os signos previamente indefinidos. O encontro de Arrabi com a baleia, por exemplo, é um trabalho sutil que tenta reconfigurar tudo que conhecemos: Arrab seria, acima de tudo, um homem que não percebeu os ventos da mudança, e que poderiam tirá-lo da comiseração natural. Ao invés disso, ele se apaixona pelo que deveria temer, e todas as cenas envolvendo “baleias” nos enchem os olhos e o coração – o talento coletivo responde a essas perguntas.

Com um elenco que compreende a composição coletiva em detrimento dos talentos individuais, “Uma Baleia pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba” conta com um ponto fora da curva: Márcio Vito. Vivendo um momento especial da carreira após ser eleito melhor ator no Festival do Rio por seu brilhante momento em “Eu Não Te Ouço”, Vito emociona aqui, com colocações muito pontuais, mas uma apresentação capaz de nos mover inteiramente para a sua direção. É como se o capitão do navio conseguisse um primeiro-oficial com as melhores capacidades. A bordo de um desfile dos predicados de uma dupla de artistas em um possível auge, as engrenagens do filme se solidificam com o elenco, que mergulha no jogo com a mesma intensidade com que Bragança e Meliande nos convida para tal.

5 Nota do Crítico 5 1

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