Mormaço

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O terrorismo de mandato

Por Gabriel Silveira

Tratando dos objetos do discurso de “Mormaço”, acho muito válido fazer um pequeno desenho de um parte do esqueleto que configura a posição social do filme. A protagonista da narrativa (Ana) é uma assistente social que tenta proteger os moradores da comunidade da Vila Olímpica e luta contra o inevitável despejo daquela gente pelas mãos do interesse das corporações internacionais que regiam o projeto olímpico e botavam o Estado brasileiro para fazer o que sabe de melhor: estragar os corpos e o espírito de sua gente. Em paralelo, Ana tem ainda de lidar com os conflitos de desapropriação de seu próprio espaço dentro de seus metros quadrados privilegiados no Rio de Janeiro; à moda de um despejo tipo Aquarius (2016) (os residentes do condomínio estão entregando seus apartamentos a uma construtora que deseja o terreno), Ana tem que lidar com uma desapropriação geral da terra, aponta para algo como uma cidade que vem se esvaziando quase por completo, algo que se concretiza fisicamente ao longo da encenação. Com a resolução das problemáticas desses dois fios de trama, o projeto vem então procurar uma porta para a catarse modulando seu  tom de thriller suave para um processo de entrega ao alegórico através de um movimento “body horror a Cronemberg muito filtrado e destilado” que arregaça esta vereda de leitura e composição que desejo expor aqui.

Para tratar desta questão de leitura devem ser expostas, também, algumas condições de processos produtivos que desencadeiam a primeira. No processo de efetivação de tradição de narrativas alegóricas que a história canônica de nosso cinema celebra deu-se (a grossíssimo modo) o seguinte: o modo de produção condicional brasileiro somado a um desejo de resistência cultural perante a dominação do modo de representação hegemônico do cinema clássico estadunidense resultou na possibilidade de um modo de representação mais próprio de nossa realidade nacional; algo que procurava ser mais honesto com sua vontade de discurso, de como discursar, no condicionamento de sua realidade executiva. O grande facilitador (e quase que a grande zona de conforto) do discurso cinematográfico brasileiro nesse processo foi o abraçar apaixonado de dispositivos narrativos alegóricos; pegar sua narração e abri-la em diversas e improváveis veredas que têm a esperança de ecoarem e cutucar um pensamento crítico (dialético) no espectador; e é como média que um realizador tenha uma intenção de que o discurso conecte-se mais profundamente com aquele indivíduo que tenha o condicionamento cultural que proporciona uma harmonização das vontades políticas em jogo. Nesse cenário de uma falta de ter como filmar e um excesso do que ter para falar para um público que está desesperado pela chance de se ler, tal modo de representação vem se encontrar nessa pluralidade de prismas alegóricos.

Tendo isso em mente, essa condição de afinidade pelo dispositivo alegórico-político (pensando em nós a partir de nossa perspectiva terceiro-mundista) funciona como uma válvula de escape extremamente eficaz dentro das pautas do suspense e do terror (não que Mormaço caia como uma ficha redonda dentro desses dois rótulos, mas seu modo de representação decide fazer uso de inúmeras ferramentas narrativas dos dois cânones citados). Sob o exercício de tensão espectatorial, seja pelo estresse da violência cênica/gráfica ou pela agonia da ansiedade, esses regimes narrativos procuram por o medo em movimento; quando o que é encenado em busca do medo diz respeito a nossas condições político-sociais fica muito difícil não ligar os pontos e crer em uma possibilidade de alegoria que efetiva uma leitura dialética da obra.

Pensando em duas obras de circulação recente no Brasil que se encaixam nessa forma como: A Sombra do Pai (2018) (o zumbificamento do proletariado brasileiro e a demonização do espírito feminino) e Nós (2019) (um megalomaníaco espelho para a maldade absoluta que se esconde no subterrâneo de cada um de nós sob o regime do racismo estrutural) dá se a entender que não é uma tarefa olímpica encontrar um ponto de convergência com uma elucidação alegórica de resistência quando não se faz parte do corpo social branco primeiro-mundista (ou vira-lata deste) que crê religiosamente no culto das muralhas de fronteiras. Dentro da perspectiva de crise há essa vontade imensa e entregue de procurar e ler o que te é importante; o que em nosso caso pode ser o medo que está em voga nessa consciência brasileira capaz de pensar e dialogar. Se no filme de Gabriela Amaral Almeida e no de Jordan Peele o subtexto do medo elucida os devidos impulsos de resistência política, o pavor e o desespero que Mormaço pinta se faz ainda mais tátil com o contemporâneo desmonte das estruturas de base da dignidade que sobrava do povo brasileiro — como se o sufoco da poeira não houvesse de sair e o povo não tivesse como voltar.

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