Um Animal Amarelo

Além de nossa vã fantasia

Por Fabricio Duque

Não é fácil traçar linhas descritivas sobre o mais recente “filme brasileiro” de Felipe Bragança, “Um Animal Amarelo”, devido à quantidade de complexas camadas que se corporifica inseparavelmente pela junção de vida, ancestralidade, passado, presente e de existência social. Exibido no Festival de Roterdã 2020, deste surreal ano “cancelado”, cujo simbolismo pode e deve ser usado aqui como possibilidades do pensar. “Das doenças todas, quem mais corrói a alma é a memória”, diz-se.

“Um Animal Amarelo” é uma realista fábula social, que re-questiona a História pelo conto épico e intimista de uma família. É uma jornada aventura por questões feridas ainda não cicatrizadas. Pelo contrário, explosivas e perigosas como a espera de um ativo vulcão. Um filme ambicioso que encontra três países: Portugal, Moçambique e Brasil. Nós somos envoltos na estranheza do presente, comportado como uma epifania. Uma fantasia sonho. O longa-metragem é sobre vidas influenciadas por um “vendaval de pudicos”, mas que também são protegidas pelo protetor espírito amarelo. É um filme livro, por capítulos, característica marcante nas obras de Felipe, e pela narração cadenciada de um intrínseco e espirituoso sarcasmo português, que mescla ingenuidade e visceral crueldade. Uma verdade doída. Direta. De confronto terapêutico. De auto-análise sem as máscaras da sabotagem e/ou de falsas crenças condicionadas.

Uma voz metalinguagem que entra no próprio filme, que conduz e interfere à medida dos acasos. Como uma escritora que já sabe o que acontecerá. Implicante por contar antes da hora o que veremos. Não se realmente o que acontece, mas a verborragia de nossos colonizadores nos envolve, criando nostalgia, melancolia e esperança. Ao mesmo tempo. “Um Animal Amarelo” inicia sua trama pelo avó que largou tudo e foi viver no interior do mato com um guitarrista negro de bar. Que precisa voltar à cidade para conhecer o neto “monstrinho”, o “herdeiro” que carregará a potência, carma, a maldição do passado e também a aventura. Com um osso “mágico de verdade” e um amigo Animal Amarelo. Um “cineasta mirim no mundo destronado”. “Como é difícil virar um homem né, cineasta?”, narra-se.

Se antes Fernando “ganhou um pássaro no mar”, agora lhe é ofertado a própria vida. Uma viagem a um mundo melhor. À riqueza e paz, matando dois coelhos com uma cajadada só: o vencer financeiro e resolver as dúvidas de suas raízes. E fazer um filme. Sobre sua vida. Com uma personagem que vira real. Sim, nós somos imersos em uma proposital estranheza. Que nos confunde e sacoleja nossas percepções com uma sensação de estarmos fora do corpo. De que tudo aquilo não passa de um efeito alucinógeno de se acordar da alienação depois de tanto tempo. De patrocinadores que “gostam muito de cultura, esporte e a bandeira do país”. De atores que querem outro filme. De ruídos, gritos, panelas e “merda federal”. “Um branco em uma zona complicada”.

“Um Animal Amarelo”, dividido em partes, é sobre este herdeiro, Fernando, “ridiculamente desajeitado” (definido por um crítico – o espectador pode sim aludir isto ao diretor daqui – visto que realidade de fora se espelha na ficção de dentro sobre a realidade) que engole dor e fumaça”. É tudo junto e misturado. Não dá para separar. Entre “delicadeza em sobreviver entre tubarões” em meio de um “mundo a tremer”; um rico brutal, um brasileiro “cagão”; “filhotes de Indiana Jones”, a “fábula do pirata pálido”; tudo é sobre entender pistas de um homem, de ir ao passado para libertar o futuro no presente.

A segunda parte é a ida. Um “estúpido louco intruso” visitando um lugarejo e vivendo a excentricidade do novo. “Cantoria alguma podia apagar os gritos do passado”, diz-se o expulsando por desrespeito. É um filme de situações. De acasos. Que acontece durante o caminho. De um lugar a outro, dependendo da ocasião, curiosidade e/ou necessidade. É também um filme de amor. De amores, na verdade. De descobertas. De reconfigurações de ideias. De rostos brancos à moda do francês “Os Iniciados” (2017), de John Trengove. De “brasileiros mentirosos”. De “fantoche James Bond”. É tudo sobre a “compensação do espírito”. De tudo que os negros sofreram e que ainda sofrem por causa dos brancos.

“Um Animal Amarelo” constrói-se por detalhes e por adjetivos. Dois cigarros com o mesmo fogo. A expressividade e a liberdade sexual. Assim, percebemos um enaltecimento da estética hipster e Kitsch arthouse, por sua fotografia artificial e suas quebras barrocas-renascentistas. É uma grande salada vanguardista. De um “Pequeno Príncipe” em busca da felicidade e da “princesa de um reino decaído” (com seu rubi clitoris de 200 mil euros). Em Lisboa, as “merdas eternas de Portugal” com o “homem do Pau Brasil e os pretos simpáticos”. A narrativa ganha ares de “Onze Homens e um Segredo” mais estrutural a “O Banqueiro” e os típicos filmes de planejamento com “crime, amor, anarquia, etiqueta e moral” borrada. “Patético, sem senso de ridículo, falante, tropical e um canalha com asas”, nosso herdeiro protagonista é definido.

O longa-metragem é também musical. Com uma sutil referência (roteiro e melodia) a “Trem das Onze”, de Demônios da Garoa. E/ou a Federico Fellini em seu eterno “8 1/2” e o carnaval adaptado. E o fado que rasga a cena com “Cartas e tempestades são presságios terríveis para quem quer navegar para longe”. Há uma tristeza tropical. “O mal do pirata é achar que inventou o mar”, alfineta-se. E o discurso revolucionário no final, quando diz “Não há como mudar o passado sem doer e sem sangrar”. Sim, tudo é uma questão sócio-político-comportamental. Uma ópera que expõe a própria vida para expurgar demônios e salvar outras existências. “Desafiar o medo. Filmar o passado e reproduzir a dor do homem negro sangrando amarrado e com medo de morrer”, diz-se em tom epitáfio da “amnésia e dor”, com “zoom lento”. Sim, concluindo, tentou-se dizer algo, mas ainda há muita coisa. Muitas camadas a serem traduzidas, decifradas e decodificadas. Como o formato-tela de exibição, por exemplo. Um filme que ainda está além de toda nossa compreensão humana. Um filme que excede a transcendência e atesta a estranheza como identidade existencial. “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.

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