Um poeta

O Poetastro

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Um poeta

O mundo gira, a Lusitana roda, e os poetas resistem. No início, pelo menos para os ocidentais, a poesia dos gregos era oral, cantada e dançada – pelo menos é o que dizem os especialistas. Veio Homero, veio Hesíodo, e logo apareceu a escrita, como meio de perdurar no tempo e espaço os loquazes poetas. O fato é que essa pulsão poética segue firme e forte, não importa quantas mídias e canais de expressão sejam inventados. “Um poeta”, longa do colombiano Simón Mesa Soto, realizado em 2025, é caudatário dessa poderosa tradição, poetas e poesia, que de vez em quando bate na porta do cinema.

Afinal, quem não tem seus momentos de tristeza, às vezes uma profunda tristeza? Essa é a sina de Oscar Restrepo, encarnado por Ubeimar Rios, um poeta alcoólatra que vive com sua mãe doente, mas compreensiva, em Medellín. Poesia para ele é coisa séria, um chamado superior. Não é algo que você simplesmente faz. Você precisa vivê-la. Mas Oscar, que publicou dois livros nos seus vinte anos, um deles premiado, não acertou mais nenhuma tacada. Errou todas, não consegue mais escrever – divorciado, adora a filha, Daniela (Allison Correa, ótima), que o repudia. Desempregado, pede à mãe empréstimo para investimento duvidoso no Zimbábue, uma roubada que nem ele acredita.

As sequências inicias de “Um poeta” são um buraco sem fundo: alcoolizado, Oscar enaltece as virtudes do poeta trágico José Asunción Silva — que passou quase em branco durante sua breve vida, no século 19 — e critica asperamente o sucesso de Gabriel García Márquez, o colombiano que faturou o Prêmio Nobel. Na rebordosa da bebedeira contempla em seu quarto um retrato do poeta Asunción, seu refúgio imaginário. Mas Daniela está se preparando para os exames de admissão à faculdade. Oscar quer contribuir, tem de arranjar alguma coisa – e acaba aceitando um lugar de professor de filosofia no ensino médio, graças à intermediação da irmã Yolanda.

Na vida real, Ubeimar Rios, ator não-professional, é isso mesmo, prof de filosofia para adolescentes. Metade do carisma que “Um poeta” alcançou, e não foi pouca coisa – começando pela mostra Un certain regard, em Cannes – vem do visual do poeta. Curvado e desgrenhado, com roupas mal ajustadas, caspa espalhada sobre cabelos oleosos e expressão abatida, olhar esbugalhado atrás dos óculos, ele tem um sorriso estático que exibe seu teclado (dentes) de modo simultaneamente asqueroso e atraente. Talvez seja essa expressão que sintetiza o filme, a marca visual obtida pela intuição do ator e observação atenta do diretor.

E quando menos se espera, um ponto de virada, na narrativa e na vida de Oscar: entre as alunas está Yurlady (Rebeca Andrade, também não-professional), cujos versos são tão promissores que Oscar vislumbra um futuro brilhante para a garota, que ele mesmo não conseguiu. Mas também a vê como uma versão de sua filha.

Simón Mesa Soto, nascido em 1986, revelou que sua decisão foi apostar todas as fichas no filme, produção independente na raiz – nesta profissão, você nunca sabe qual filme será o último, porque é muito complexo, leva tempo e talvez não haja energia para um próximo. Eu disse: se este for o meu último filme, vou fazê-lo do jeito que eu quero.

E fez.

Dentre as opções, filmar em Super 16mm era o modo mais eficaz de obter um realismo “granulado”, uma proximidade áspera com cenários e atores – mesmo que isso implicasse em uma economia distinta caso rodasse em digital. Filmar e revelar, imperativo da película, implica em custos e logística de produção em princípio mais complicados, mas também que obrigam a uma intensidade particular na direção e atuação. E as bordas da imagem parecem distorcidas devido ao formato irregular da câmera, uma qualidade rudimentar que registra cada tomada – não é um filtro vintage do Instagram.

Uma estética de feiura, enfim. Oscar tenta, no meio disso tudo, reencontrar o belo, as musas inspiradoras da poesia. Convence Yurlady a participar de um festival literário organizado por poetas propensos a autoelogio público e à procura de vozes das classes baixas para justificar sua existência.

Soto conclui seu pensamento da seguinte forma:

Decidi que precisava fazer um filme sobre (o que seria) a pior versão de mim mesmo em alguns anos, como forma de evitar me tornar um velho frustrado…eu queria retratar o que sou, a estética da feiura, daquilo que passa despercebido. Ali, abracei o erro.

4 Nota do Crítico 5 1

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