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Um Herói

Fábula Farhadiana da ambiguidade

Por Giulia Dela Pace

Festival de Cannes 2021

Um Herói

“C’est dans la connaissance des conditions authentiques de notre vie qu’il nous faut puiser la force de vivre et des raisons d’agir – É no conhecimento das condições autênticas da nossa vida que devemos buscar a força para viver e as razões para agir”.  (Simone Beauvoir).

Um Herói”, novo longa do cineasta iraniano Asghar Farhadi, é uma das lascas primorosas que compõem o confuso mosaico da natureza e moral humana. Segundo o próprio diretor, a história do filme foi baseada em um evento similar que ocorreu poucos anos antes do filme, no Irã, o que corrobora para a ideia secundária da obra: a aceleração da informação em um mundo ultra midiático e uma necessidade, que tornou-se habitual, em receber reconhecimento de terceiros por ser minimamente um ser humano “bom”, quando combinadas tornam-se genuínos venenos que intoxicam todos os envolvidos.

O filme é um grande estudo da moral humana, porém ambientado e focado na situação do Irã contemporâneo – como em “A Separação” e “O Apartamento” do mesmo diretor. É nesse emaranhado de eventos, coincidências, relações de poder e classe, relações intrapessoais e interpessoais que demonstram – termo que nos lembra constantemente que relações humanas com outrem e com nós mesmos não estão fadadas aos axiomas matemáticos de uma moral universal.

A moral da ambiguidade, de Simone, consta justamente como uma proposta de visão que nega “que existentes separados possam ao mesmo tempo estar ligados entre si, que suas liberdades singulares possam forjar leis válidas para todos”, segundo a autora. E Farhadi compreende que tal ambiguidade da natureza humana deve ser visível e aplicável no que temos de mais banal: o cotidiano.

Não é preciso falar em guerras, em grandes crimes contra a humanidade, ou mesmo em cenários que envolvam personalidades de renome. A magnitude de simples erros e mesmo de “mentiras brancas” – que a priori não tem objetivo de ferir – ocorrem a partir de seus desdobramentos. E aí está o grande poder de “Um Herói”, na sua investigação da dualidade de episódios midiatizados que se tornam de conhecimento público e seus desenvolvimentos de âmbito privado.

O filme é um grande “Big Brother”, assim como o cinema por si só já se propõe, pois, a noção de vigilância constante e onisciência do espectador sobre cada detalhe e situação dos personagens que compõem a narrativa corroboram para que o espectador reflita sobre as possibilidades de inteligência coletiva sob uma dinâmica de constante patrulhamento de nossos atos. Há, por um lado, a necessidade de ser vigiado – pois só assim há a existência nesse meio – e por outro a necessidade de vigiar e punir constantemente os outros, pois a possibilidade de saber o que acontece em cada canto do mundo é o que as mídias e Internet trazem, mas sem nos contextualizar mais profundamente sobre cada detalhe. E assim, Rahim (Amir Jadidi), o “herói” protagonista, é cancelado.

Rahim é um presidiário – condenado à pena de morte por dívidas não pagas – que decide usar seus dois dias em liberdade para convencer Bahram (Mohsen Tanabandeh), a quem deve dinheiro, a perdoar a dívida que o condenou e tentar pagar parte do valor. Mas o dinheiro que Rahim oferece a Bahram é advindo de uma bolsa encontrada na rua por sua namorada Farkondeh (Sahar Goldust). No segundo dia ele tenta encontrar a dona da bolsa e desiste de pagar o credor, mas ele faz isso de modo que todos fiquem sabendo e o façam de herói na opinião pública. O que faz com que Bahram seja constantemente julgado e pressionado por todos a ceder e é tido como vilão, até que tudo começa a seguir o famoso ditado popular: mentira tem perna curta.

Asghar Farhadi, mais uma vez, foi brilhante ao estudar a dualidade humana fugindo completamente do conforto hollywoodiano. E dessa vez, completamente aplicável ao conceito de moral da ambiguidade de Simone de Beauvoir, pois a indústria do cinema estadunidense gerou uma necessidade maniqueísta nos espectadores que sempre os conduziu a esperar por heróis e odiar vilões ao invés de representações humanas em filmes.

A área de cinzenta que não distingue bem o que é bom e o que é mau por conceitos universais é o ambiente onde o filme ocorre e onde os personagens conduzem suas questões de forma arrítmica, não há padrão. É tudo imprevisível, tudo humano. Por mais que os dois personagens em conflito tentem manter suas posições, mas principalmente a honra – tema frequente nas obras do cineasta -, ambos têm conceitos distintos do que é correto e errado.

E isso ocorre por certa diferença de classe entre os personagens e inocência de Rahim sobre diversas questões. Há na obra uma pureza honesta, onde mesmo a ambiguidade e a mentira entram no “céu”. Algo lindo de se ver, porque não trata o espectador como acéfalo, mas o faz pensar criticamente sobre situações universais e corriqueiras em um ambiente específico.

Moral é aquilo que se mostra nos âmbitos mais singulares de cada indivíduo, aí está o ponto. É na compreensão de cada situação e de cada razão de existência que as escolhas são feitas, só assim podemos medir certo e errado. No filme, cada personagem cumpre essa função e Farhadi terceiriza essa função aos espectadores também, pois a cada “cancelamento” e vilanização dos personagens o espectador é convidado e se questionar – quase como no Teatro do Oprimido – sobre o que o outro lado da moeda, que não foi à mídia, tem a dizer.

E ao final dessa fábula Farhadiana, o espectador é atirado no penhasco da angústia com um grande pontapé de terceirização do peso da culpa pela merecida sede de ser o observador da desgraça humana e se esquecer dos sentimentos catárticos da experiência do filme após deixar as salas de cinema.

5 Nota do Crítico 5 1

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