Um Dia com Jerusa

Singelo e carinhoso

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

O último filme do terceiro dia da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Um dia com Jerusa”, de Viviane Ferreira, é um ode à Léa Garcia e tudo que ela representa. Segurando suas pontas através de um naturalismo que evoca uma força da natureza na atuação, o longa de trama simplória, se passa durante um encontro entre Jerusa (Léa Garcia) e Silvia (Debora Marçal). Silvia está fazendo pesquisa para uma marca de sabão em pó e Jerusa está fazendo aniversário de 77 anos.

Os diálogos giram em torno de questões femininas, ancestralidade e memória familiar, com isso, atos simbólicos são comuns na dramaturgia que é proposta pela cineasta. A menstruação, as relações com o rio da cidade que isso implica, toda a construção que acontece através de determinadas histórias que Jerusa conta incansavelmente. E a tônica do projeto é essa, além de mostrar algumas barreiras sociais enfrentadas por Silvia, seja no campo socioeconômico ou na vida pessoal e o medo dos preconceitos que pode vir a sofrer, tanto por sua negritude, como homossexualidade, o longa trabalha incisivamente com a necessidade da protagonista falar suas histórias sem responder objetivamente em nenhum momento a outra personagem.

A direção de arte de “Um dia com Jerusa” busca um naturalismo maior para a locação, transformando, teoricamente, a residência em uma casa convencional do subúrbio, com exceção de um local da casa. Porém, acaba esvaziando demais o espaço, deixando uma clara sensação de cenário mal preparado, pois determinados desleixos da produção, principalmente na maneira que o espírito do ambiente se projeta para o espectador, acaba falhando em tornar aquilo tudo acolhedor. E com uma fotografia, de altos e baixos, determinadas cenas acabam dando a sensação de falta de construção dramática para seus atos narrativos, que são bem definidos através de flashbacks (falarei mais sobre), pontuando diretamente toda a relação daquelas palavras com a vida de cada uma daquelas mulheres.

O projeto é naturalmente lento, já que toda o seu eixo gira em torno de apenas duas personagens que dialogam sobre questões majoritariamente pessoais, mas que se elevam à uma problemática social e política, pelos corpos em si serem políticos, quando não alvos, porém, o ritmo acaba sendo afetado pela escolha dos momentos para os flashbacks, que entrecortam uma possibilidade dramática potente, além de saltar de uma situação a outra de maneira tão brusca, que parece não adentrar de maneira orgânica que esses pontos buscam atingir. E isso acaba expondo uma dicotomia grande em “Um dia com Jerusa”, pois ainda que olhar seja singelo, tanto na interpretação das atrizes, como em planos específicos (como o ato de arrumar a mesa), não parece compreender que a saída menos burocrática de se reviver essas memórias em imagens nítidas, não é incitar a noção de urgência de tudo aquilo, mas sim acompanhar a serenidade e a tranquilidade de sua protagonista (o que faz pouco).

Onde o longa consegue chamar atenção, é quando expande todas as questões de ancestralidade e questões femininas para dentro de seu texto e incorpora isso na forma fílmica, traduzindo com precisão um singelo ato de ser mais cuidadoso com as maneiras que trabalha tais pontos, mas acreditando sempre em um choque direto com as histórias contadas por ambas personagens. E essa característica é algo comum de se ver na Mostra, uma tradição da oralidade na maneira de se passar determinadas narrativas e histórias de vida. Para isso é necessário que as duas atrizes construam uma química que auxilia nessas parábolas que não atingem uma questão imagética direta, neste ponto, é inegável que a escalação de elenco não poderia ter sido melhor, Léa Garcia e Debora Marçal conseguem fazer isso com uma naturalidade tão própria, que torna prazeroso estar em uma sala de cinema vendo-as serem projetadas em uma tela grande.

Com um belo plano das mãos da protagonista em uma água, enquanto peixes atravessam a tela, “Um dia com Jerusa” é uma obra potente e importante que marca com clareza o posicionamento de Tiradentes nesta 23ª Edição, sem apelar ou soar histérico em seu discurso, os planos finais conseguem dar o tom geral da produção com precisão e marca com vigor uma estrutura histórica tão pouco inclinada ao diálogo, com uma dialética que pode ser intragável para uns, mas decisiva para outros. 

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