Tudo Sobre Yves

O embaraço privado

Por Vitor Velloso

Reserva Imovision

“Tudo Sobre Yves” de Benoît Forgeard é mais um longa da cadeia comercial francesa que chega em terra brasilis. Curiosamente como mais de metade dos últimos lançamentos digitais, esse mantém a linha de projetos internacionais que encontraram fácil distribuição em países periféricos. Trata-se de um filme, no mínimo, curioso. A trama não é só estranha, como a narrativa em si parece mais preocupada em extrair humor e romance de cada novo desdobramento que necessariamente desenvolver seus personagens. Nesse ritmo, duas coisas são marcantes no filme, sua lentidão desinteressante e o quão vergonhosas algumas cenas conseguem ser. O momento de apresentação de diversos produtos, é particularmente especial nesse último sentido.

Nada é verdadeiramente relevante em “Tudo Sobre Yves” exceto que existe uma inteligência artificial privada que tenta impor um estilo de vida a partir de padrões que o capital privado é capaz de formular a partir de seus dados. O negócio funciona no automático, as cenas são construídas para tentar criar algum estímulo visual primário e os diálogos apenas reforçam a exposição da situação. Um jogo onde a luz indica o tom da cena e as performances seguem à risca o imenso totem tecnológico que rege suas vidas. O Yves parece moldar a própria produção, que não encontra espaço para ser minimamente criativa diante de uma história que tinha algum potencial de distinção das demais, só que o enlatado comercial francês não consegue nem entreter. As superficialidades imperam, mas as coisas são tão desinteressantes que o espectador não consegue se manter ativo até o fim da projeção.

O protagonista, Jérem (William Lebghil) faz um personagem enfadonho que urge por atenção física o tempo todo e So (Doria Tillier) não poderia ser um complemento dramático pior para dar ritmo à algo que perde o propósito já nos primeiros minutos, quando a situação é apresentada e não sai da superfície. E a esquemática da linguagem segue a padronagem dos produtos internacionais, como dito anteriormente, as coisas são dadas de maneira frígida. O humor industrial francês costuma recorrer a saídas mais fáceis, como esses personagens que tomam atitudes inusitadas ou os diálogos corridos que terminam em uma gritaria incompreensível. Curiosamente, a segunda alternativa não é tão comum durante os intermináveis cento e sete minutos de “Tudo Sobre Yves”, em compensação todo mundo presente no filme tem alguma atitude pouco coerente e parece desafiar a paciência do espectador na procura de alguma motivação para seguir assistindo.

Engraçado é um adjetivo pouco categórico aqui, pois todas as cenas, sem exceção, parecem expulsar o público da experiência e trazer algo ainda mais vergonhoso para a obra. É degradante perceber que o descarte contínuo das obras francesas aqui, continuam recebendo adeptos preparados para treinar os sotaques e seguir vestindo seus figurinos europeus por toda uma geração. É preocupante relembrar uma preocupação de outrora, que surgiu de um dos cabeças do Estação Net: “O público dos cinemas não está se renovando”. Bom, é difícil imaginar como isso irá acontecer com essa popularização do streaming abraçando o centrismo da mesma forma que as grandes telas. Até o blasé foi popularizado como expressão cinéfila. Ou cinefilie?

De toda forma, quem sofre é o público. Que continua não tendo acesso às obras brasileiras que estão na roda para distribuição e seguirão sem lançamentos por algum tempo, aliás, é o turbilhão das janelas que os festivais procuram criar. E se “Tudo Sobre Yves” chega com um tema datado, narrativa desinteressante, ritmo tedioso e uma construção embaraçosa, não há como imaginar que os caminhos trilhados pelo digital estão se diferenciando da decadência programática do mercado estrangeiro para o cinema nacional. A verdade é que quando as negociações ocorrem na paridade euro x real, na atual circunstância, o descarte parece ser a única opção viável para quem quer manter a cosmética dominante ao longo de décadas.

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