The Mastermind
Entre cópias e originais
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente no Festival de Cannes 2025
É, pois é, o ser humano é bem óbvio ao buscar tendências de reprodução, gerando expectativas de obra-de-arte a cada novo trabalho de um artista. Nunca aceitamos mais uma cópia e sim clamamos novamente pela original. Woody Allen, por exemplo, talvez seja a exceção, pois consegue criar réplicas como únicas, seguindo uma fórmula típica que parece a mesma, mas que é totalmente diferente da anterior. E assim, quando Kelly Reichardt, realizadora estadunidense, nascida em Miami, apresentou seu longa-metragem “First Cow – A Primeira Vaca da América”, onze anos depois de “Wendy e Lucy”, o mundo do cinema entrou em combustão imediata. Havia ali o mais puro do cinema narrativo, em seus tempos de contemplação não estendida, deixando uma certa poesia entre ação e silêncio. Então, já era de se esperar que seu novo filme “The Mastermind”, exibido na competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025, causasse mais ansiedade, ainda que toda essa esperança pudesse nos frustrar.
E então o filme começa. “The Mastermind” conserva a estética mais indie de sua diretora: a fotografia saturada a um granulado mais atemporal e o tempo narrativo mais suspenso, ambientando-se quase numa metafísica de rotina espontânea versus o ritmo de tensão premonitória a um iminente perigo. Este é na verdade pode ser considerado um “anti-filme” por retratar a mediocridade, o privilégio e a crítica à verborragia pela inércia existencial da personagem protagonista, o ator Josh O’Connor, em uma interpretação inexpressiva (até agora não se percebe se é proposital à forma do física e se é uma característica intrínseca a seu interlocutor), para assim construir sua decadência pessoal. Aqui, propósito e resultados são metaforicamente ambíguos. Por exemplo, o roubo de uma obra-de-arte, à luz expositiva do dia, sugerindo inclusive uma trilha musical que lembra “11 Homens e um Segredo”, soa como um experimento social. E qual o motivo do preâmbulo deste texto? Porque há em “The Mastermind” um que bem mais solto que performa demais a naturalidade, ainda que determinado a se desenvolver pelo deslocamento abstrato.
Parece que tudo em “The Mastermind” quer ser blasé e distante, como se quisesse apenas observar a rotina de um cotidiano mais automatizado, entre esperas de cigarros fumados. Aqui, o espaço e cenário buscam também serem universais. Parece Paris e parece uma cena do filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, que, por sua vez, buscou copiar em tom de referência Jean-Luc Godard em “Bande à Part”. Mas não. Tudo acontece mesmo em Massachusetts. Aos poucos, nós entendemos a verdadeira missão. E cada vez fica mais evidente que este é mais uma “versão” de outro filme que já cansamos de internalizar em nossos “gostos requentados”, entre jazz clássicos (por Rob Mazurek) e esperas da ação ao plano arquitetado. Só que neste, a intenção do roteiro de humanizar esses ladrões os transformando em desastrados e amadores não surte o efeito da descontração e soa como uma sucessão de clichês bobos, desengonçados e já batidos nas situações consequentes, como o roubo “na cara dura”, no meio de todo mundo.
Dessa forma, “The Mastermind” apresenta coisas demais e demasiadas sub-histórias. Fica over. Aumenta o “humor americano” da graça absurda e parece dizer que “agora quero ser um produto cinemão de Hollywood”, entre junk food, tempos estranhos e atmosfera fora de tom. Temos então uma nova inércia existencial, que por não se sustentar como abstrata, teatraliza a tentativa do ensaio de ser mais naturalista e coloquial de detalhes triviais. Nesta “nova fase”, que adentra mais num que de “On the Road”, há espaço até para piadas com o filme anterior da diretora. Tudo agora parece vazio demais. Disfuncional, estranho e imprudente demais. Mas talvez “The Mastermind” ao se deslocar do próprio tempo narrativo tenha absorvido essa apatia e internalizando as consequências azaradas de sua personagem. Pois é, como disse, expectativa demais causa frustração. Um artista não acerta sempre. E está tudo bem.
Mas sim, “The Mastermind” corrobora o estilo “quietista”, observacional e de avançar pelas bordas de sua diretora, de desconstrução minimalista de gênero (neste caso de assalto, mas a “Wendy e Lucy”), ao imprimir em tela o tempo invisível, mais onírico, aquele que acontece na essência abstrata das coisas sentidas, com poucos diálogos. E também traz outra característica importante de Kelly Reichardt: a de criticar pontual e sutilmente a política e nossa estrutura social, como as tensões da Guerra do Vietnã e os conflitos sociais da época.
Texto produzido no dia 25 de maio de 2025 durante o Festival de Cannes.


