The Intruder

Freddy Krueger volta a atacar!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020.

Uma das características principais do cinema argentino é a forma como desconstrói sua sensibilidade, imprimindo um humor típico de sarcasmo agressivo, cúmplice e duelista pelo desenvolvimento de idiossincrasias humanizadas e orgânicas em tom cotidiano-rotineiro. Mas em hipótese nenhuma podemos o limitar e o enquadrar, até porque é intrínseco ao ser humano galgar desafios, novidades e experimentações estéticas-artísticas. Em “The Intruder” (no original “El Prófugo”), da realizadora Natalia Meta (de “Morte em Buenos Aires”), a busca é pela estética noir-puzzle modernista, que consiste em dividir com o espectador a missão de montar as peças de um quebra-cabeças, que, com digressão, confusão e metafísica, por sinapses psicossomáticas e por interferências fora de tom, mergulha nos meandros mais obscuros da subconsciência.

O longa-metragem quer parecer Pedro Almodóvar, principalmente em seu “A Pele que Habito”, por causa da liberdade permissiva de se poder ser o que quiser, de nunca mitigar e sim amalgamar experiências, desejos e loucuras. Aqui, nossa protagonista, uma dubladora e cantora em um coral, vivencia uma perda de sintonia. Uma descarga elétrica. Que altera o bater das asas de uma borboleta do outro lado do mundo. Assim, sua vida é mergulhada no caos do reerguer.

Sim, a decisão de desnortear para criar pode também ser um tiro no pé se não for bem arquitetada e conduzida. Tudo porque são idas, vindas e voltas que necessitam de um guia totalmente focado e decidido. Em “The Intruder”, destoa-se o olhar treinado com a ressignificação, como gritos que parecem estímulos sexuais, com mais “forte empatia” transmutada. É também possível uma aliteração de sonhos dentro de sonhos e filosóficos demônios internos que em momentos de vulnerabilidade obrigam-se a sair.

Contudo o que realmente incomoda é a suavização palatável da estranheza, forçada, ingênua e sem o discernimento para recolocar o carro em linha reta. Ou voar sem medo. Ou apelar a idiossincrasias por gratuidade. Ou potencializar comportamentos como genéricos. Ou o marido “drag” (chato, “idiota”, histérico e ciumento) e “mauricinho” com seu “Pullover” amarrado no pescoço, que “quer até controlar os sonhos” dela (cantando inclusive uma música brega em um caraoquê) . Ou um resort de “descanso” e “reconexão” a fim de uma luxuosa e cara discussão de relacionamento. Passeios turísticos, zombarias, sonhos e alucinações, nós perdemos a noção de realidade e de projeção. Psicopatia, possessão ou “visitação” sobrenatural (à moda do livro “O Iluminado”, de Stephen King)? “Faça sua magia!”, diz-se.

“The Intruder” descortina-se no surreal realismo fantástico. Pela sensação de “alguém no sonho que desde pequena não sabe o que é”. Será uma alusão ao filme “A Hora do Pesadelo”, de Wes Craven. O “intruso” de Inés a bagunça de sua trilogia equilibrada: controle, doçura e firmeza, neste com um que do alemão “O Grito”, de Nicolas Pesce. Ouve vozes, barulhos na cabeça, ruídos à noite, reflexos e interferências no ambiente de trabalho. O “terror” está mais para “Suspíria”, de Dario Argento, com suspeitas a “marcapasso” e “O Senhor dos Anéis” (um físico e o outro um divertido alívio cômico).

Embalado por um elenco de peso, Érica Rivas (de “Relatos Selvagens”, “A Cordilheira”), Nahuel Pérez Biscayart (de “120 Batimentos por Minuto”), Daniel Hendler (de “O Abraço Partido”, “Ninho Vazio”), Cecilia Roth (de “Tudo Sobre Minha Mãe”, “O Anjo”), O filme brinca também com “O Fantasma da Ópera” em uma viagem etérea, de epifania fora do corpo. Até aí, tudo bem. Mas é introduzida na história uma personagem que explica o que poderia ficar misterioso. Será uma versão “O Sexto Sentido” e ou uma abraçada às obras de David Cronenberg e seu “eXistenZ”, que ganhou prêmio em Berlim. E ou será uma acalentada ao Brasil com a música “Homem Com H”, na voz de Ney Matogrosso, por fazer piada com o ator que é gay na vida real. Será uma colocação erroneamente homofóbica? Talvez sim, talvez não.

Só se sabe que de uma hora para outra, “The Intruder” perde o próprio controle, não faz mais sentido nenhum e o espectador fica com as peças soltas sem conseguir montar o quebra-cabeças. Alguém comentou ao sair da sessão que o que ela fez no final deveria já ter feito no início, porque pouparia tudo, inclusive o filme. Não tanto, mas também não pouco. Não tão radical, mas também não tão condescendente. Concluindo, um filme que promete e não cumpre. Que ou corre ou para, sem se decidir qual a direção. E que por domínio total resolve se auto-explodir no final.

Trailer

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