Os Mortos Não Morrem

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Trechos de vidas escolhidos pelo roteiro

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019 

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019, sessão na cerimônia de abertura, o novo filme “The Dead Don’t Die” (tradução literal de “Os Mortos Não Morrem”) do diretor americano Jim Jarmusch (de “Paterson”, “Amantes Eternos”, “Sobre Café e Cigarros”), busca construir uma fábula metafórica de gênero de terror comédia, o que chamamos de terrir, para debochar de uma sociedade que se torna mais zumbis humanos na própria existência.

“The Dead Don’t Die” é conduzido pela atmosfera de tempo parado. O espectador consegue sentir uma encenada e teatral interpretação de seus atores em suas esperadas reações de seus papéis. A narrativa infere estruturas cinematográficas de outros diretores, como a estranheza desconcertante dos Joe e Ethan Coen, conjugada com o tempo surreal e incomum de Wes Anderson.

É uma obra sobre a humanidade. Sobre entender as idiossincrasias do outro próximo. e suas “colônias de formigas”. Sobre aceitar que as pessoas não mudam, que a morte neste caso é apenas um simbolismo à alienação reinante do agora por “wifi livre”. Neste ponto, nós podemos identificar uma maior referência a “Twin Peaks”, de David Lynch, lapidada com o trash viceral sanguinário de Robert Rodrigues.

As coisas inexplicáveis de “The Dead Don’t Die”, principalmente com seu humor deslocado e embalado pela música homônima, e composta especificamente para o filme, do cantor country Sturgill Simpson, conhecido por seu terceiro álbum “ A Sailor’s Guide To Earth” (que por sua vez também aparece em cena como um zumbi).

O “filme de zumbis” talvez tenha se preocupado demais em sua criação, assim acabou soando forçado, de ter que provar sua veia alternativa com pitadas de ambiência rebuscada, entre “o lunático cabeludo homem das cavernas”, “hipsters”, “Hobbit Frodo”, “pessoas-máquinas” e ou desajustadas piadas politicamente incorretas (com cara de espontaneidade cotidiana), propositalmente preconceituosas, como por exemplo, o café “preto” para significar “forte”.

“The Dead Don’t Die” é uma grande picardia, que objetiva o amador-caseiro a fim de reparar as fragilidades de todo e qualquer roteiro de filme B de gênero. Sim, entendemos toda a mensagem crítica, mas há informação demais com pontas soltas e personagens perdidos (em cadeiras túmulos de um lugar de correção do menor, por exemplo). Quem sabe talvez seja memo um filme de sobreviventes individuais”, remetendo nossas vidas que se aprisionam em telas de celular para conversar com outras pessoas.

Quando a televisão falha, o celular perde energia e conexão (a tecnologia falhando), esse egoísmo do existir obriga esses seres “enterrados” em suas casas a continuar procurando seus particulares prazeres (“um barato Chardonnay”) fora de suas zonas de conforto e já destituídas de maniqueísmos. E uma crítica às ideias do presidente americano Donald Trump contra o México.

“The Dead Don’t Die” é também um mapa de pistas de esquetes corais (autônomas no desdobramento), um tesouro de fragmentos de outros filmes (“O Grande Gatsby”, versão com Robert Redford, e ou uma quase explícita referência a “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, pela cena-espada da atriz Tilda Swinton e ou a muito explícita ao diretor canadense George A. Romero e ou de “Star Wars”, uma “excelente ficção” e ou a metalinguagem de um roteiro escolhido). “Aprecie os detalhes, o mundo é perfeito”, diz-se. É um “creepy feeling”, um sentimento que arrepia a espinha de que o presente está aceleradamente mudando. É a paranoia nossa de cada dia (das “vibrações tóxicas da lua”), em loop e em retroalimentação.

“Nada está acontecendo normalmente agora”, diz-se. Sim, é um filme que pulula cinefilia, como o túmulo aberto do diretor americano Samuel Michael Fuller, que por dedução se torna zumbi. A narrativa perde ritmo a cada reviravolta e o que deveria ser de surpresa, alitera-se em um turbilhão de tentativas e erros de fechar o ciclo da história. É divertido, mas é comum. Pretende-se a cúmplice ingenuidade de seu público destinado: nerds de plantão, fãs de filmes de gênero trash e que encontram nas falhas possibilidades de criação e de liberdade poética manipulada.

Como foi dito, não é ruim. É Jim Jarmusch puro, simples e direto, conservando suas características próprias de traduzir complexidades existencialistas em pop adequações modernistas. Em que conversas são mais importantes que ações propriamente ditas. Que a análise respeitosa do humano vence da crítica destrutiva em moldar imagens-projeções do ouro que se enxerga como espelho distante.

*Publicado 14 de maio de 2019, às 23:30, horário de Cannes, França

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