The Cave

Contante Reconstrução

Por Jorge Cruz

Em “The Cave“, o diretor Feras Fayyad obteve sua segunda indicação ao Oscar em apenas três anos. A potência das imagens de “Últimos Homens em Aleppo” angariou espectadores para a promoção de debates acerca da guerra civil na Síria. Em seu nova obra, o cineasta retorna ao seu país de origem e traz a rotina de um hospital subterrâneo na região conhecida como Ghouta Oriental. Uma zona agrícola que abriga boa parte dos rebeldes sírios. Com mais de cinco anos de estado de sítio decretado, a área ficou marcada por cruéis ataques de armas químicas em 2013.

A produção do documentário, inevitavelmente, demanda alguns riscos. Tanto que quatro membros da equipe perderam a vida durante as filmagens. Fayyad tem como um dos concorrentes na cerimônia do dia 9 de fevereiro Waad Al-Kateab, responsável pelo documentário “For Sama“. A diferença é que “The Cave” segue um caminho mais procedimental, ritualístico. A imersão se dá a partir de sequências que destrincham a rotina da Doutora Amani Ballour, diretora do hospital. Mais frio em relação às emoções, é uma obra mais contida no trato com as imagens chocantes – principalmente em sua primeira metade.

Sabemos que Feras Fayyad não estará na cerimônia. Ao contrário de 2018, quando ele conseguiu de última hora uma autorização para entrar nos Estados Unidos, as últimas informações dão conta de que seu visto foi negado. É quase como se Donald Trump pedisse para que  os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas escolhessem o documentário como vencedor em sua categoria, apenas para ouvir um discurso sobre respeito, dignidade e tolerância. Resta saber se os votantes, que há dois anos deram o troféu para “Ícaro“, uma obra inferior, abdicarão de um produto que olha para o próprio umbigo como “Indústria Americana” e selecionarão qualquer um dos outros quatro candidatos – mesmo que “The Cave” não seja a melhor opção.

O diretor, além da experiência de um primeiro produto bem recebido há dois anos, se diferencia de Al-Kateab porque atua como agente externo, como reportador daquelas representações. Trata-se de um termo que deve ser ao máximo evitado, mas não dá para fugir da afirmação de que “The Cave” é um longa-metragem mais palatável do que “For Sama”. Não apenas no uso da trilha, que tenta conduzir as sensações, principalmente no clímax que o aproxima de um thriller. Toda a montagem se pauta nesse recorte de experiência proposto a Fayyad. É como se a obra nos colocasse em uma posição de cumplicidade em relação a Amani.

Uma médica que não imaginava viver tais experiências quando se matriculou em uma faculdade de medicina. O sexismo é colocado em dois momentos distintos, fatalmente soando deslocados – apesar de serem os momentos mais potentes do filme. O primeiro se dá em um questionamento de um dos pacientes sobre o fato da diretora do hospital ser mulher. O segundo é uma conversa excepcionalmente franca do grupo de doutoras. Ali fica nítida a consciência acerca da opressão do patriarcado, que se fundamenta – como sempre – em preceitos religiosos inquestionáveis.

Aos poucos “The Cave” vai deixando de lado o pouco de contemplação e passa a retratar de forma direta a face mais cruel de um conflito. Na segunda metade, quando o cenário o transforma em um hospital de guerra, aqueles que procuram cenas carregadas de sangue terminam por encontrá-las. Mesmo assim, o cineasta conduz os trabalhos de maneira a conceder um peso mais coerente ao drama que se segue. Por se tratar de um recorte, fica a sensação de que se ganhou muito com o trabalho de montagem da dupla Denniz Göl Bertelsen e Per K. Kirkegaard. Há uma predileção por estender ao máximo o tempo, até que o espectador se dê conta do que está vivenciando.

Uma dessas sequências acontece logo após um bombardeio, quando Amani caminha pelos escombros por alguns minutos. É como se a própria percepção de seu limite fosse um trabalho coletivo, uma troca com o público. Ao focar em suas experiências, “The Cave” acaba nos provendo argumentos para nos convencer de que desistir, nem sempre, é um ato vergonhoso. Promove as mais importantes decisões de sua protagonista com a mesma frieza aplicada em uma obra que foge do desenvolvimento de arcos sentimentais. Ao final, é como se ninguém ali pedisse um abraço, apenas que suas decisões sejam respeitadas.

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