Indústria Americana

Imperialismo às Avessas

Por Jorge Cruz

Completando a trinca de obras audiovisuais que rondaram a temporada de premiações nos Estados Unidos ao abordar intercâmbios culturais entre América do Norte e China, “Indústria Americana” pode não entreter tanto quanto The Farewell. Porém, não segue a linha reducionista e etnocêntrica de “One Child Nation, mesmo que certas abordagens – principalmente as relacionadas às demandas dos trabalhadores da indústria – se pautem de maneira favorável à perspectiva ianque no tabuleiro do jogo econômico.

O documentário dirigido por Steven Bognar (indicado ao Oscar pela segunda vez) e Julia Reichert (indicada pela quarta vez) tem início em 2010, quando uma empresa chinesa resgata uma fábrica de peças automotivas abandonada pela General Motors em Ohio, deixando um rastro de dez mil desempregados. A ideia da Fuyao e seu fundador Cao Dewang é aliar supostas qualidades profissionais dos dois países, criando uma interação que envolve a contratação de norte-americanos e o envio de funcionários chineses. Em uma espécie de “imperialismo às avessas” todas as condutas da companhia são relativizadas, com a desculpa cada vez mais frequente do capitalismo: antes era pior, pelo menos temos emprego.

Até certo ponto “Indústria Americana” consegue dosar suas questões, em representações sóbrias de um grupo carregado de diferenças. Por um lado há uma intenção em propor aos imigrantes o american way of life, em seus ônus e bônus – inclusive o famigerado tesão armamentista. Todavia, esse ideal de que “agora vocês estão na América” é da porta da sala de reunião para dentro. Ao contrário do Programa Mais Médicos, tão criticado por liberais brasileiros por envolver a transferência de parte das remunerações ao governo cubano, não há nenhuma mobilização contra essa mesma prática. Por sinal, bem mais grave, visto que estamos diante de uma empresa privada.

O que Bognar e Reichert querem, de fato, explorar, é o ressentimento da ex-classe média do meio-oeste dos Estados Unidos, grande vítima do pós-industrialismo acentuado por medidas menos protetivas de Barack Obama. O filme, aliás, é o primeiro lançamento da produtora Higher Ground, fundada pelo ex-Presidente. Há uma preocupação em não qualificar aquelas pessoas como o grande eleitorado de Donald Trump, mas a conclusão é inescapável. De forma positiva o longa-metragem não se partidariza, mesmo que sofra consequências que o prejudiquem. Ao mesmo tempo em que permeia momentos fundamentais da dinâmica de seu objeto com sequências corriqueiras, como diálogos na linha de produção, traz Dewang como personagem ativo. O CEO da Fuyao, em algumas partes, surge como entrevistado-narrador, denotando certo teor propagandista.

Tudo leva a crer que o bilionário chinês foi um pouco enganado nesse processo. Sob esse verniz do equilíbrio e das dificuldades de interações multiculturais, há algo que beira o vitimismo ianque – ou, pelo menos, um produto que inocenta determinadas condutas xenofóbicas. Ao contrapor norte-americanos e chineses, como se os primeiros fossem a todo momento pressionados enquanto os outros gozassem de um ambiente minimamente saudável, é pouco esclarecedor. Em nenhum momento de “Indústria Americana” há o isolamento dos protagonistas para que os documentaristas possam entender melhor suas visões. Ou isso ou se compra a ideia de que o objeto da obra é a própria América e – por tabela – Dewang e sua fortuna.

Essa tentativa de radicalizar se acentua quando tentam colar na imagem dos funcionários estrangeiros uma espécie de comodismo por não quererem se sindicalizar – como se a luta de classes nos Estados Unidos fosse tão edificante em fábricas como essa. Bognar e Reichert chegam ao cúmulo de tentar desenhar o que seria o exemplo de um funcionário satisfeito, em um momento do documentário onde a montagem o aproxima de um vídeo institucional. Reserva momentos perto do final para tratar da precarização do emprego e da busca por um aumento de produtividade. Fase em que a automação da linha industrial reserva aos futuros desempregados o caminho do tal empreendedorismo. Aqui é onde a obra parece encontrar um objeto bem mais universalista e curioso. Encontra e chega ao fim logo depois.

A indicação ao Oscar (e inexplicável favoritismo, eis que é pior que todos os seus concorrentes) se deu mais pela maneira menos exótica de se tratar da relação com a China. Enquanto “One Child Narion” insiste em ridicularizar a música folclórica do país para fazer valer seu ponto, “Indústria Americana” se vale da mesma representação apenas uma vez – e ainda faz a mesma coisa com um canto do sindicato norte-americano. Ou seja, uma produção em destaque ao redor do mundo que, como sempre, fala apenas para um grupo de sobrinhos do Tio Sam, como se dependêssemos dessa visão para compreender nossos próprios valores.

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