Strawberry Cheesecake

Uma pegadinha de dispositivos

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

Existe uma tendência nos curtas-metragens de terror que já dura alguns anos, que passa pela própria reformulação do gênero com o passar dos anos. Uma assimilação de certos clichês como dispositivos pragmáticos e estruturação da linguagem a partir do dado concreto de suas situações. “Strawberry Cheesecake” de Siyou Tan bebe dessa fonte. Tenta ser ágil em sua apresentação, com exposições curtas e catalisa a violência em apenas um eixo dramático.

Algo que acontece frequentemente com os curtas que assumem essa abordagem de dispositivos narrativos e formais no terror, é a sensação do projeto estar correndo contra o relógio. O filme urge em terminar, tudo é acelerado, expositivo, clichê e encerrado na superfície, porque no fim, o que importa é a banalização dessa violência. É o fetiche capilarizado há décadas pela indústria norte-americana. Quando a construção só mira as ações das personagens e mortes, existe um esvaziamento inevitável, o próprio jogo dos espaços em contraste, a exemplo da cena da perseguição, se desgasta rapidamente para um tédio que nem as tentativas de humor salvam o interesse.

O maior problema de “Strawberry Cheesecake” é que os clichês assumidos tornam os dispositivos vazios na maior parte do tempo. Não funciona como um ritmo imediatista dessas ações, sem grandes mediações, e não é capaz de articular a narrativa para longe das obviedades paródicas. Quando a paródia se torna esquemática, a decadência é total. Contudo, de maneira isolada, algumas sequências podem acabar funcionando pela velocidade que a montagem impõe, quase um videoclipe sem música e com alguma morte previsível. A anunciação da tragédia é a sina do terror mas são as proposições limítrofes que devem buscar alguma renovação no gênero. Talvez a zona de conforto industrial tenha convencido alguns jovens cineastas que “terror é o que a imagem causa de maneira pragmática”. Ainda que não seja um equívoco, essas representações possuem um peso nesses espaços e contextos. Singapura é uma síntese de como parte dessas relações de poder funcionam, especialmente em inglês.

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