Sorry, Baby
Ternura sem ingenuidade
Por Vitor Velloso
Festival de Cannes 2025
Uma das melhores surpresas de 2025, “Sorry, Baby”, da diretora estreante Eva Victor, consegue caminhar entre tantos assuntos espinhosos com uma facilidade estonteante, que apanha o espectador na contramão. O suspiro de vitalidade em meio ao cinismo prático da Hollywood contemporânea tem seus cacoetes de filme arthouse, mas não permite que as situações propositalmente constrangedoras tornem-se um mero recurso estilístico. Pelo contrário, a estratégia visa a um aprofundamento na personagem principal, Agnes (Eva Victor), seus traumas, desejos e anseios, por meio dessa abertura quase expositiva de diálogos e sentimentos dos personagens, sem recorrer a um drama hostil e/ou piegas que repousa todas as atenções sobre lamúrias e lágrimas conjuntas.
“Sorry, Baby” é um filme que não tem vergonha de explicitar suas intenções de debate, seu pessimismo otimista, suas representações desengonçadas e os arquétipos úteis para o desenvolvimento narrativo, demonstrando que a tipificação dramática de determinados personagens não é um problema quando bem utilizada e construída, como no caso do personagem Decker (Louis Cancelmi). Por outro lado, a direção de Eva Victor é respeitosa e responsável o suficiente para compreender o momento correto de encerrar os recursos expositivos e estabelecer limites sobre o que não se deve filmar, o que não deve constar no quadro e como a descrição oral de um determinado acontecimento, sem a interrupção da montagem, pode ser um dos momentos mais desagradáveis de uma obra que, em geral, direciona o olhar do espectador para a ação, a fisicalidade das interpretações e a larga expressividade de todos os atores. Com exceção dessa cena, o peso da verdade parece puxar o filme para um campo que irá atormentá-lo até o último minuto de projeção, em maior ou menor grau.
O interessante aqui é que, além de trabalhar com diferentes formas de estruturar essa base dramática de Agnes e sua amiga Lydie, interpretada brilhantemente por Naomi Ackie, a direção é hábil em transformar esses diferentes episódios, organizados entre passado e presente, em narrativas que possuem sub-camadas próprias. Por exemplo, existem sequências muito parecidas do ponto de vista formal, nas quais um enquadramento direcionado para um corredor que leva à porta da residência se repete, mas, a cada nova exibição, estamos em um novo contexto dramático e narrativo. Contudo, se em um momento parece que estamos diante de um filme de terror, mais efetivo que boa parte das produções contemporâneas, inclusive, em outro é o som de um rato agonizando que move essa tensão para outro campo; em seguida, surge outra distorção, e assim sucessivamente.
Dessa forma, o trabalho de Eva Victor impressiona pela ousadia dramática e pela maturidade no uso de recursos estilísticos e formais que fogem do ordinário, destacando o desempenho da atriz em sua estreia na direção.
“Sorry, Baby” é um dos filmes mais interessantes do ano por conseguir entregar um produto que compreende suas particularidades, seu lugar nesse mercado cinematográfico e suas ideias próprias de fazer cinema e construir personagens, sem nunca permitir que interferências exteriores atrapalhem o conjunto, já que todas têm seus “solos” nesse projeto. Por essa separação de sentimentos, momentos e situações dentro de um todo bastante complexo, que abraça as inquietações de sua personagem, a qual precisa externalizar com frequência esse acúmulo de constrangimentos e incertezas, o filme conquista destaque no cinema independente norte-americano, que teve algumas pequenas revelações interessantes no mercado de 2025, mas que aqui merece menção especial.
A trilha sonora, assinada por Lia Ouyang Rusli, evita o padrão repetitivo e mimético da indústria para apresentar breves composições em momentos específicos, normalmente de transição temporal. A montagem, assinada por Alex O’Flinn, responsável pelo interessante “Garota Sombria Caminha pela Noite”, de 2014, e por Randi Atkins, consegue dar conta desse pequeno grande caos de Agnes e da turbulenta relação da personagem com diversos fragmentos de sua vida, por meio da exposição que cada questão oferece de seu trauma e receio. Aliás, é fascinante como o roteiro de Eva Victor coloca a protagonista para refletir sobre o próprio trabalho que sempre sonhou conseguir, justamente por ser esse lugar o de uma ferida aberta.
Em um mundo de tanto cinismo e demagogia, “Sorry, Baby” consegue, mesmo com uma temática pesadíssima, olhar para o mundo com sutileza e doçura, sem se confundir com ingenuidade. A breve participação de John Carroll Lynch é um belo exemplo disso.


