Somos.

Massacre e impunidade

Por João Lanari Bo

Netflix

Fim de tarde na pequena cidade do nordeste mexicano, Allende, localizada a uns 60 quilômetros do Rio Grande, também conhecido como Rio Grande del Norte – rio que faz boa parte da fronteira do México com os Estados Unidos. A data é 18 de março de 2011, pouco mais de dez anos atrás. Começam a chegar sicários do cartel Los Zetas, quase uma centena, com o objetivo precípuo de aniquilar dois traidores, respectivos familiares e demais conexões – amigos, empregados, quem aparecer pela frente. O cartel ostenta o torpe laurel de ser considerado o mais violento dentre os cartéis: são conhecidos por se envolverem em táticas de “choque e pavor” particularmente brutais, como decapitações, tortura e assassinatos indiscriminados. Além do tráfico de drogas, core business do grupo, administram tráfico sexual e de armas, extorsões, sequestros e atividades afins. Naquele fim de tarde e noite adentro em Allende, desapareceram e/ou foram assassinadas cerca de 300 pessoas – ninguém sabe, até hoje, o número exato, pois a maioria das vítimas foi incinerada em barris, outra prática habitual do cartel. “Somos.”, a série da Netflix, constrói a narrativa introduzindo licenças dramáticas particulares – os famosos subplots – e trazendo o evento macabro para a audiência do streaming globalizado.

Se a História é uma catástrofe, como dizia Walter Benjamin, o que se passou em Allende é a confirmação literal do presságio. A tarefa do historiador – no caso, dos produtores de “Somos.” – é reunir as ruínas, o que sobrou da História. De novo, literalmente – passados dez anos, as ruínas dessa noite devastadora continuam à vista, configurando uma cidade-fantasma, espectro da contemporaneidade. Foi uma das piores atrocidades de direitos humanos já vistas no México, senão a pior, em um país castigado pela violência. Em 18 de março do corrente ano, a organização não-governamental National Security Archive, localizada na Universidade George Washington, em Washington, disponibilizou uma extensa compilação de documentos e testemunhos, extraídos de 4 mil páginas dos registros elaborados pelos promotores do estado de Coahuila, onde situa-se Allende. Logo na introdução, leia-se:

Os arquivos retratam uma cidade quase totalmente subordinada a Los Zetas – do gabinete do prefeito aos principais comandantes da polícia e policiais comuns nas ruas. Testemunhas descrevem em detalhes gráficos como Los Zetas minou e criminalizou as forças de segurança pública de Allende, e como estas últimas participavam rotineiramente de sequestros, assassinatos e outros crimes em nome do grupo. Até o momento, apenas um punhado de Zetas e policiais corruptos foram condenados em um caso que envolve dezenas de cenas de crimes, centenas de vítimas e a participação documentada de vários Zetas e funcionários públicos.

Não é uma situação totalmente estranha ao que se passa, em alguma medida, no Brasil: mas a escala do que ocorre no México é assustadora, possivelmente em função do elevadíssimo fluxo de caixa oriundo do tráfico de drogas, graças à proximidade com o maior mercado consumidor do planeta, os EUA. Até o presídio estadual de Coahuila era controlado pelo cartel, que o utilizava como depósito de mão de obra gratuita e sítio para calcinar corpos. O Los Zetas surgiu no final dos anos 1990, formado por ex-comandos do Exército mexicano, alguns treinados pela DEA: começou como segurança de outro cartel, o cartel do Golfo. No começo de 2010 racharam e partiram para cima do antigo patrão. Em 2012, os Zetas estavam presentes em 11 estados no México, tornando-se o cartel de drogas com o maior território do país: hoje, diluiu-se e/ou metamorfoseou-se. A repressão, obviamente, contou com forte apoio da agência antidrogas norte-americana, a DEA. A ironia trágica, entretanto, é que foi justamente em razão de infiltração articulada por agentes da DEA que o massacre de Allende foi perpetrado. O erro, atribuído aos “altos escalões” da agência, foi compartilhar o segredo com a Polícia Federal mexicana, sediada na capital: 1 hora depois, o cartel foi avisado. Em 2017, a jornalista Ginger Thompson desvelou o malfadado vazamento, fornecendo ao realizador de “Somos.”, James Schamus, a base factual para os seis episódios da série.

O que seria mais um produto audiovisual do gênero “Narcos”, polvilhado de violência, sangue e desatinos, transformou-se nas mãos de Schamus em um relato desprovido dos habituais truques estilísticos de roteiro e edição. Mesclando atores profissionais e não-profissionais, reproduz os dias que precederam a tragédia na ótica cotidiana de alguns moradores, da vendedora de cachorro quente (e olheira) ao fazendeiro com práticas escusas, passando por adolescentes despreocupados, prostitutas, bombeiros ex-alcóolatras e estafetas do cartel.  A ênfase dramática é relativamente esvaziada, o que pode incomodar aqueles que esperam a adrenalina purgatória dos clichês do gênero: para representar uma tragédia dessas, afigurou-se adequado. A tarefa da população ordinária, afinal, é sobreviver em meio às ruínas, o que sobrou da História.

Trailer

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