Sombra

Entre o shopping e o cartão postal

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2021

Depois que o irracionalismo da pequena burguesia se articulou na defesa da inocuidade e do prosaico, uma catástrofe aconteceu: o camel amarelo se tornou símbolo dos bandeirantes zona-sulescos, atrás de uma vida cultural que não esteja alinhada com a militância liberal-progressista. O barato é Bressane e Neville D’Almeida, com pitadas de Bossa Nova, mas sem esquecer o bom e velho inglês do Heavy Metal de Cueca do Batman. “Sombra” de João Pedro Faro é o espírito libertário da farofada com câmera digital na mão e a fé na imagem na cabeça. 

Está mais pra lá do que pra cá. Sem dar pé em nada, o imbróglio da criação é usufruir do vazio. É o criacionismo que defende a não-ideologia cinematográfica, uma lindeza de consenso pragmático. Mas sem dúvida, a esterilidade e a histeria denunciada por um sujeito de Vitória da Conquista há alguns anos, parece um tanto atual. Tanto em “não despertaram do ideal estético adolescente” como em “anarquismo pornográfico que marca a poesia jovem até hoje”. Aqui, uma ressalva deve ser feita. Está claro que “Sombra” não possui a pornografia anteriormente denunciada, mas possui a vulgaridade no desejo pela projeção de um submundo. Aliás, Mangue Bangue foi deslocado para a Zona Sul carioca. Grandes assimilações, pequenos negócios. 

Mas essa “banalidade” é fruto da gozação ou da crença? Talvez seja o Camel Amarelo. De toda forma, é possível remontar ao saudosismo à Boca do Lixo pelo impuro e imoral. Uma “digressão” feita com citações à agressões felinas, violência dos indefesos, sombra nos olhos e atravessamento em túneis da Zona Sul. Uma crueldade jamais vista em solos tropicais! A anti-mandioca. A profanação da internacionalização da cultura nacional, o delírio do Twitter. É uma espécie de culto no rooftop ao sarau do Marcelo Camelo cantando no aniversário do Roberto Campos. 

O tédio aqui é o de menos. O Mac com vídeo em língua estrangeira dividindo espaço com um jovem fumando Camel Amarelo, faz refletir sobre três coisas: beleza, talento e juventude. Beleza é a falta de argumento dos imbecis, talento é o ego histérico e a juventude caminha com seus tweets irritadiços em nomes impronunciáveis e vociferando contra a própria cultura, no anonimato da própria imagem. E “Sombra” é a síntese dialética da homologação cultural propagada a quatro paredes e um ecrã de como a rebeldia nacional deve ser encarada na anti-autoria. Um convite aos criacionistas: Não assinem seus filmes. Porém, a obra não está nessa gênese messiânica onde deidades assumem a objetiva para proclamar o estoico. Está mais para mimesis do tédio geracional entre pixels e cigarros norte-americanos, onde a bola da vez é a produção marginal de apartamento, a não-discussão, a fugacidade do posicionamento, a política do virtual e a defesa do irracionalismo. 

A pequena burguesia precisa criar uma base de imbróglio argumentativo, onde os axiomas estéticos findam em si mesmo a própria ideia de unidade, não por acaso o inconsciente guia para a fragmentação de um Brasil que não se enxerga em lugar algum, apenas nas representações cansadas e decadentes de cigarro, álcool e o túnel que liga um shopping ao cartão postal. E quanto mais “Sombra” se esforça para ser inócuo ou brincar com um dispositivo e outro, mais fica claro que a ânsia do nada é uma manifestação histérica da mise-en-scène (ou misancene, assim mesmo glauberiana) em sua decadência moral diante da marginalidade autodeclarada. Mas diferentemente de uma imposição dos espaços, é o sentimento que as redes sociais e o Camel Amarelo criam. É uma convulsão entre o gosto pelo fajuto e a reafirmação de alguma coisa. Um espasmo que não se decide nunca e reafirma a fragilidade do ego diante da tomada de decisão. Se certa vez o barato era o Paulo Vilaça enfiando o dedo no ânus e cheirando, agora Mangue Bangue é o Mac com cigarro norte-americano e baboseira de violência contra gatos. Recusou a cinefilia e foi à família.

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