Snu – A História de Amor que Mudou Portugal

Complemento de esquizofrenia textual

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Há muitas maneiras de se escrever uma crítica, pode-se partir de uma escrita que compreenda mais a forma, o discurso, é possível fazer isso com agressividade, moderação, polimento etc. “Snu –  A História de Amor que Mudou Portugal” é um desafio nesse campo de debate. Por um lado, a vontade de descarregar no teclado, é alta. Por outro, esse sangue quente pode atrapalhar o leitor que disponibiliza seu tempo aqui no site. Ainda que a mesma consideração não exista em “Snu”

Patrícia Sequeira, que assina a direção, faz questão de colocar: “Um filme de Patrícia Sequeira”. Há sempre um debate em torno do quão egocêntrico é assumir que uma produção desse tamanho ganhe um selo de propriedade particular do realizador. Bom, nesse caso, o pedido de holofote da diretora pode não ser exatamente aquilo que ela desejava. O longa possui diversas questões que comprometem a experiência, desde sua montagem à sua encenação que parece incorporar o que há de mais artificial para uma cinebiografia e/ou romance.

Próximo à um slide de aniversário comandado pela carreta furacão, os primeiros dez minutos de filme vão levar o espectador ao seu limite. Uma música pop norte-americana tocando de fundo, atuações de novela mexicana, um fundo falso, uma luz direta, choro, cortes dramáticos, noticiários e mais choro. A encenação soa o tempo inteiro estar caçoando de si mesma, em alguns momentos parece que estamos assistindo uma sketch do casseta e planeta (take de Snu conversando com marido em frente à TV), com tom dramático e pessoas falando inglês em Portugal. Tudo está situado em uma tênue linha entre o brega e a vergonha alheia. Em determinado momento, onde a protagonista entende que está apaixonada, a câmera tenta emular uma vertigem enquanto ela faz caretas e o fundo é o sofá de nossa vó. 

Mas se essa proposta da linguagem não se enquadra na necessidade dramática que o filme busca evocar, as coisas ficam mais graves com o desenvolvimento da trama. A fotografia passa a atuar como um estimulante de exposição, a montagem tenta agrupar aquilo que na encenação já não funciona e todos os atores não conseguem interpretações que sustentem seus personagens, pois o texto ultra expositivo acaba fragilizando qualquer investida no campo dramático. 

Se “O Paciente – O Caso Tancredo Neves” de Sérgio Rezende agride os olhos, “Snu –  A História de Amor que Mudou Portugal” chega para fazer com que o espectador grite em nome de Édipo e entregue suas janelas ao cinema novelesco-dramalhão-slide presente em sua frente, pois quando nada funciona, parece que há uma agressão direta ao público, um desrespeito à quem dispôs a paciência.

E essa dificuldade de se manter até o fim da exibição, é crônica. Ir até o fim de “Snu – A História de Amor que Mudou Portugal” é mais difícil que parece. Pois como escrito anteriormente, todas as funcionalidades que o filme tenta apresentar são perdidas, a linguagem está perdida em um referencial de novela, não se encontra na encenação, parece remontar uma paródia mas se leva a sério o tempo inteiro, quer ser didático e se aproxima de “Sigilo Eterno” de Noilton Nunes. 

Cada sentença sobre a Social Democracia, Socialismo e Democracia são superficiais, confusas, não propõe um encerramento em si mesma, termina por decadência de discurso, pela fragilidade do texto, das interpretações e da encenação. 

Não sei em que pé o cinema comercial de Portugal anda, mas se tirarmos como referência o filme em questão…. A coisa vai mal. Muito mal. Pois como o longa se presta a fazer o serviço norte-americano em território próprio, seja no discurso ou na forma, e a maneira como a encenação (não) funciona aqui, demonstra todo uma fragilidade que está em meio ao cinema comercial português. Como dito, não se pode generalizar a partir daqui, mas a investigação não parece um caminho de felicidades e alegrias. Pelo contrário.

Ao leitor que não se atentou ao título, o texto foi escrito a partir de uma oposição de forma e discurso. No fim, explicitamente, não há tentativa de debate aqui, apenas uma exposição que tenta conciliar algumas possibilidades da crítica cinematográfica, de ironias à proposta formal. Dito isso, encerro o texto com a curiosidade de uma breve investigação do cinema comercial de Portugal.

Trailer

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