Sirât

Entre desertos, raves e explosões

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025

Sirât

Há filmes que já nascem evocando questões estruturais sobre as próprias formas narrativas. Se analisarmos pelo princípio tácito da autoralidade, então, por obviedade conclusiva, teremos a certeza que é o realizador o verdadeiro detentor das ideias da obra e de como escolhe qual condução quer seguir (independente do que o espectador espera e/ou prefere assistir). Parece lógico, mas como sempre o ser humano vai lá e torna tudo complexo, só que na maioria das vezes de viés extremamente contraditório: o de tentar embasar sua obra conceitual pela simplicidade, a construindo na zona mais confortável da criação. O exemplo disso tudo é o quarto longa-metragem dirigido pelo francês parisiense Oliver Laxe, “Sirât”, exibido aqui na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025.

Sim, “Sirât” é acima de tudo uma experiência visual e sonora (o desenho de som é muito bom – quase uma personagem viva), numa tentativa genuína de naturalizar, de forma sensorial, a organicidade do coloquial vivido no exato instante que o mesmo acontece. Para isso, a mise-en-scène do filme precisa abrir da plasticidade imagética e buscar a estética mais realista do cotidiano, que se apresenta mais amadora e caseira. Nesse road-movie desértico, em que o tempo parece não existir de tão suspenso, nós espectadores somos convidados a participar de um balé de corpos comuns. Sim, como disse essa é a escolha de seu diretor, que sabe muito bem o risco que corre com essa decisão. De um lado, nós podemos enxergar vida real acontecendo, com pessoas gordas, sem braço, sem perna, sem dentes, com piercings fazendo uma rave no meio do deserto. Ainda que tenha entre eles a personagem “perfeita” a esse conflito: um conservador certinho buscando a filha desaparecida. Do outro, nós também pensamos que tudo isso não passe de um oportunismo exploratório que usa o básico para expor de forma vazia as pautas que busca lutar.

Sim, é quase óbvio afirmar também que “Sirât” é uma jornada de conhecimento. De transformação. Da metáfora que é buscar alguém para na verdade se reencontrar. É, talvez eu seja cético demais, talvez por ser carioca e já ter nascido com perspicácia aguçada, mas para mim o filme quer porque quer me manipular de uma maneira pobre ao generalizar cada fenótipo dominante em tela, físico e de comportamento tipificado, metaforicamente juntando genética e meio ambiente. E buscando também desconstruir a própria composição da imagem ao começar o filme com as preparações de colocar caixas de som para uma rave, lembrando muito um que de “Priscilla, a Rainha do Deserto” só que bem mais “biológico” e selvagem à ideia dos paredões de funk da Furação 2000.

Essa metafísica estranha de “Sirāt”, com câmera próxima, música eletrônica, projeção de lasers nas montanhas do Marrocos, cenas estendidas e subjetivas de dentro da festa, alongando o efeito do transe catártico (especialmente pelo LSD), num que de cinema direto, trabalha os “tipos” e quer imprimir comportamentos performativos, numa percepção genérica do lugar que cada um escolheu existir ali, expondo externamente todas as características-arquétipos dos gêneros apresentados. Até mesmo as ações são derivantes do senso comum: o tanque do exército, a intimidação do poder e a linguagem da violência. O que “Sirât” se propõe é ser uma crítica da contracultura, misturando “seres estranhos”: roqueiros, gays, hippies, afins, simpatizantes, tudo na mais utópica liberdade de ser e de se estar. Ao mesmo tenta que esta obra tenta criar identificação cruzada, almeja também a distância.

“Sirât”, como disse, é uma aventura de descoberta alegórica. De um pai (o ator Sergi López) e um filho à procura de uma filha. Em conversas humanizadas e solidárias. Sim, e o inevitável acontece. Quando o filme é solto demais, não há como manter algum ritmo. Cachorra que aparece e some, entre tensões e silêncios do nada. Há estradas perigosas, perrengues, luto, elipses, explosões, tudo parece ganhar o ar mais teatral, didático e forçado (que o diretor se defende dizendo que optou pelo “distanciamento emocional”), mesmo quando a história nos prende a uma situação de absurdo real (essa reviravolta que nos chega como uma bem sacada metáfora sobre as consequências da guerra – e que cada um ali ao se comportar destoante da sociedade e sem pertencimento à massa coletiva precisa “deixar de existir”). Sim, é sim uma precisa jogada do roteiro, mas que se perde no todo, ainda que lute com muitas armas: o visual “hipnótico” e não clichê do deserto. Há sadismo versus transcendência. O título “Sirât” faz referência à ponte islâmica que as almas devem cruzar para o paraíso. Essas almas errantes “usaram” o limbo para se limpar da própria humanidade a fim de conseguir o reino dos céus. Isso tudo ficou claro ao espectador? Pois é, não. Inferi porque gosto mesmo de “viajar na batatinha”.

2 Nota do Crítico 5 1

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