Sem Seu Sangue

O amor por reações orgânicas e sintomáticas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Há uma tendência em nosso novíssimo cinema brasileiro, que é a de importar estéticas cults influenciadas pelos ultras independentes filmes de contemplativo gênero autoral, estendendo a cena a fim de igualá-la à realidade ainda mais espontânea e naturalista. “Sem Seu Sangue”, da realizadora Alice Furtado, é um desses exemplos, por seguir a narrativa pela fábula existencialista e de condução metafísica.

Exibido na mostra paralela Directors‘ Fortnight Quinzaine des Réalisateurs do Festival de Cannes 2019, “Sem Seu Sangue” é uma viagem etérea. Desenvolve-se pela tradução mais verossímil com espontaneidade da vida, que acontece nos detalhes cotidianos, como tomar um banho de praia. É cinema na ação por uma câmera-ambiente “mosca” que filma sem nos fazer perceber sua presença. Sem tabu e sem limites “podados” ao “prazer solitário” (com um que de “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho) da descoberta do desejo (a volúpia ardente de “remorso vão, amargo e quente”), ao som de Joy Division. Mais jovem impossível: a tradução exata da transição.

“Nenhuma coisa é lógica. O coração faz o que quer e a gente faz o que der”, diz-se, embasando que acima de tudo “Sem Seu Sangue” é sobre a incondicionalidade do amor não afetado, tampouco sentimental, reverberando-se por reações sintomáticas físicas: “contemplar, observar e afastar”, entre distâncias ocasionadas por citações de poemas “mais famosos”. Constrói-se toda a imersão de “angústia louca, de acre sabor na boca”. “Eu faço versos com quem morre”, cita um poeta “existencialista maldito”. Ah, a inocência da juventude, que acha que já viveu sofrimento ao ler linhas precisamente definidoras.

Produzido com o apoio do Festival de Roterdã, o longa-metragem comporta-se como um sussurro hesitante, principalmente por suas falas de tom baixo, tímido e de ambiência depressiva. Traduz-se também o propósito de vida dos pós-adolescentes do mundo atual, que parecem que vivem em um tempo alheio, quase atemporal. Eles não criam planos imediatos e andam sem rumo passando tempo. Cada um responde ao estímulo sexualizado, à flor da pele, em corpos em ebulição com textos árabes tatuados nas costas (talvez pelo hype hipster). É um filme sobre amadurecer de uma menina sob influência da fase permanentemente adulta. Que aprende a brincar de “asfixias cúmplices” (uma “droga” que faz chegar tonta e fraca ao Nirvana – uma prática comum hoje em dia). “Odiava não ser livre”, resmunga-se em narração pontual (“Essa certeza o destino cura depois de um tempo”).

“Sem Seu Sangue” pode sim ser um análise antropológica comportamental de seres perdidos e vazios. Talvez por isso, o filme precise ser também vazio e mais artificial. Sim, nós poderíamos viver para sempre dentro desta história. Tudo se configura como um grande teatro, realista e metafórico, em que hemofílicos tomam injeções e não podem se cortar. Alice Furtado, estreante na direção de um longa-metragem, com pulso forte, conduz com domínio total, principalmente pela captação lúdica das micro-ações, como jogar bola em super close.

Nós espectadores somos convidados a vivenciar uma epifania. Uma poesia com fusões temporais. Com reflexos interferidos por cores e por estender a observação já contemplativa. Um mundo de tempo suspenso e paralelo, encenado em pesadelos de “floresta densa” e de “exames de endoscopia”. Um espectro neon. Sim, nossa personagem está doente de amor. (prostrada, sem comer e sem prognóstico para o horizonte). Um monstro real. O mal da perda. A solução? Uma viagem a uma casa sem nada. Sem TV a cabo, mas com filmes e livros antigos. Será uma ilha mágica? Um portal da cura?

“Sem Seu Sangue” embarca em outra viagem. Quase em MDMA, onde encontramos cadáveres andando na rua entre batuques tribais. Zumbis do novo tempo? Outra metáfora a nossa própria humanidade social? O ritmo muda. Gera-se tatuagens, pureza sensível e sensual e uma drástica transformação no próprio roteiro (que objetificam certezas), como se um novo filme começasse a frente de nossos olhos.

Didático demais ao explicar tudo ao público, esquecendo-se de sua inferência ambiente para concretizar o contexto, perdendo-se por completo. Mas a dúvida plantada em um determinado momento nos faz questionar a própria ida. Talvez não seja uma condução tão despropositada assim. Entre expectativas sonâmbulas, digressões e reconstituições , o longa-metragem, que possui um que de Basquiat insere o ator argentino-argelino-francês Nahuel Perez Biscayart, de “120 Batimentos Por Minuto”. Pois é, nós nos perguntamos o porquê de “Sem Seu Sangue” não ter ficado no campo sensorial do transe absoluto e do motivo de querer encontrar o realismo.

 

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