Segredos do Putumayo

O academicismo modal

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade de 2020

“Segredos do Putumayo” é um filme de características muito ambíguas. Sem dúvida é uma experiência que pode gerar impacto no espectador. A partir de frentes múltiplas, o documentário recorre à História enquanto memória/relato, apoiando-se nos escritos de Roger Casement, Irlandês. E aqui nasce um dos pontos decisivos para a relação do público com a obra, todo o relato que é lido, não está traduzido. A língua original permanece, o inglês. E isso… Eu, Vitor, não consigo engolir bem. 

A direção é de Aurélio Michiles, brasileiro, de Manaus. A necessidade de manter o inglês à frente dessa comunicação, ainda que defendido como “patrimônio cultural original”, ou mesmo uma manifestação política em prol de seu protagonista e sua luta, me parece pouco genuína. Antes de haver respeito às “tradições” da oralidade que a obra baseia-se, o foco inicial é, sempre, de forma irremediável, a cultura brasileira e latino-americana. Um trabalho de tradução não torna-se absurdo se lembrarmos que a comunicação deve ser o ponto fundamental para qualquer obra que busca alguma amplitude política em seu trato. E sejamos honestos, “Segredos do Putumayo” possui isso de sobra. Mas onde mora essa reverência excessiva à cultura de seu protagonista, encontra-se de maneira igualmente inequívoca, uma constante aproximação da escrita. São múltiplos textos que surgem na tela, a fim de tratar da História que não pode ser contada em imagem, apenas exposta em fragmentos.

Aqui, outra questão fundamental, o academicismo parece ser a verve percorrida em última instância, pois se há a recusa de traduzir ao português o diário do irlandês, também não há esforço algum em tornar a escrita, objeto oral, para que a máxima cinematográfica e sua possibilidade de consumo pelos analfabetos, seja cumprida. Além disso, a esquemática é dada enquanto forma cadenciada pela Academia, algumas dramatizações, como dispositivos de ilustração, de algumas passagens escritas por Casement. Infelizmente, a aproximação do espectador é mediada por essa consciência intelectualizada, que não permite parte do povo que está retratando, recusa a didática, não inclui os embates culturais, mas se concentra gravemente em construir uma aproximação da realidade que cita, com o mundo contemporâneo. Neste quesito, o longa consegue fazer a costura com alguma eficácia, ainda que falhe constantemente em negociar a análise política diretamente ligada ao material, por negligência ou mesmo temor. Mas a falta de envergadura em apoiar-se fora do eixo humanístico, sem a compreensão do âmbito cultural como receptor da comunicação produzida por ele, gera um vácuo irremediável. 

Não há como conscientizar o povo latino-americano com a fala inflamada, ou não, com a língua inglesa. E não existe espaço única e exclusivamente para o centrismo desenfreado que pode ser provocado por uma geração formalizada em torno de universidades e formalidades culturais. A produção intelectual brasileira possui um nicho bastante sólido e específico, mas tão fragilizado em manter suas ideias ativas, que precisam recorrer aos estrangeirismos para conseguir seccionar parte de nossa História. É uma pena. É a falta de análise crítica do material que consumimos, acadêmicos ou não. Casement era uma figura curiosíssima e possui grande contribuição em parte da história indígena, pois sua denúncia levou à mudanças concretas. Mas retorno o dito, a escolha da fala em inglês, distancia excessivamente o objeto cinematográfico de sua própria comunicação imediata. 

Por fim, “Segredos do Putumayo” é um projeto absolutamente bem intencionado, que se perde em um academicismo pouco pragmático, tornando a burocracia o processo de comunicação, recusando parte do processo socioeconômico que está intrinsecamente ligada à sua narrativa, o subdesenvolvimento. E tal desvio reforça drasticamente o quanto há uma necessidade de apoio constante às Histórias dos europeus. Além disso, o longa possui uma dificuldade tremenda em saber encerrar sua exibição, postergando o fim para mais textos na tela, mais falas desnecessárias e alguns recortes de entrevista que não engrandece em nada, pelo contrário, reforça um problema grave dessa comunicabilidade da Academia com a realidade brasileira. Infelizmente estará fadado ao limbo da distribuição enxuta, aos ciclos de festivais, pois as necessidades de curvar-se diante desse intelectualismo, tornam tudo muito seccionado da própria cultura e solo que reverencia.

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