Saxifraga, Quatro Noites Brancas

A instituição mais falida do eurocentrismo

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2021

“Saxifraga, Quatro Noites Brancas” de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval é mais um longa francês que figura no Festival Ecrã 2021 com as discussões filosóficas que tanto travaram a cinematografia do país nos últimos anos. Entre o irracionalismo da burguesia e o racionalismo da mesma, as coisas parecem que não saem do lugar há 40 anos. Discute-se a “revolução” no mesmo tom de 68, uma instituição falida que só se mantém de pé pelo saudosismo da histeria da classe dominante, no mesmo tom rouco de cigarro para quem quer filosofar sobre o “perene”, o tempo e os desdobramentos de suas políticas imperialistas no terreno cultural.

É de uma falcatrua impressionante. Os franceses se tornaram os bastiões da reprodução, Straub replicou previsões de Marx há 200 anos, em seu último filme, e foi aplaudido pela crítica. Agora, Klotz e Perceval retomam a mesma discussão de mais de meio século, com sobreposições, tons de vermelho, debates em torno do capitalismo e suas encenações estoicas. Nada se debate de fato, apenas algumas exposições simbólicas da incapacidade de se fazer uma movimentação política aguda, que não resulte no “choro dos soldados” ou toda a baboseira ali colocada. É sempre importante relembrar que “foi preciso um policial morto para que o francês percebesse o argelino”. E “Saxifraga, Quatro Noites Brancas” fica nesse tomo decadente de mea culpa histórica e necessidade de articular algo minimamente coerente, mas se perde no barato do submundo, onde um machado é objeto de dança para um filtro vermelho e as discussões não saem do ciclo eurocêntrico.

O engraçado é ver como o delírio das palavras e da encenação febril anti-material se torna objeto de divagação de grande parte das obras do irracionalismo burguês. “É impossível ter revolução sem artistas”. O nível dos debates é tão rasteiro que só há duas possibilidades para parte da crítica ovacionar os dizeres: a concordância (sinal de raquitismo intelectual) com os imperialistas ou a alienação brutal de uma mais-valia ideológica que também resulta na assimilação do “figurino francês”. De toda forma, temos aqui a falência moral programática de uma classe incapaz de pensar para longe dos limites de seu próprio continente. E o longa apenas representa mais um filme que é abraçado pelos países periféricos como manifestação última da filosofia e da forma cinematográfica. Quando a exposição relata que eles interrogam as “convulsões do mundo contemporâneo”, fica claro o motivo da arte do país estar na dicotomia do saudosismo falido ou do entreguismo ao dólar, da mesma forma que a guinada (ainda mais) conservadora das últimas décadas, reforça as “desandanças” do velho imperialismo. Se essa é a interrogação dessas convulsões, tá explicado o porquê de debruçar-se sobre os crimes de guerra cometidos (Não Haverá Mais Noite) ou o irracionalismo inoperante de “Saxifraga, Quatro Noites Brancas”.

O consenso gera uma resposta imediata da burguesia, amparada pela desarticulação de um raciocínio, uma espécie de telefonema-bala de prata para estancar suas sangrias de um período dominante. Esse suposto radicalismo que o cinema experimental francês vem exibindo, que está mais como uma “masturbação descerebrada” dos zumbis ali representados na obra do casal. Uma espécie de imbecilização poética das manifestações políticas. É a síntese da histeria coletiva que marca o esgotamento promovido por Godard e os órfãos da Nouvelle Vague. O modernismo nunca superado traz as chagas de uma burguesia que tenta costurar as feridas na problemática do amor, de uma instituição falida e da dicotomia da luta armada e o pacifismo. O murro em ponta de faca já não encontra espaço em lugar nenhum. Klotz e Perceval lutam para eternizar esse delírio em solo europeu, permeado de seu eurocentrismo fajuto e argumentações racionalistas.

O cinema latino-americano, por outro lado, se dividiu entre essa linha e o realismo fantástico, ainda em fase embrionária. A verdade é que o “poétique du cinéma” por uma revolução, é de uma chatice desmedida, que chega no máximos às esquinas de Laranjeiras e Cosme Velho da Zona Sul carioca. “Saxifraga, Quatro Noites Brancas” tenta suspender a matéria para criar um fantasma que já assombra eles há seis décadas.

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