Mostra Um Curta Por Diq mes 13

Samuel e a Luz

O épico-interferência na construção de uma nova era

Por Fabricio Duque

Mostra de Cinema de São Paulo 2023; Mostra de Gostoso 2023

Samuel e a Luz

Há filmes que duram anos para serem realizados. Torna-se um projeto de vida de um cineasta que atravessa épocas e mudanças geracionais. Nesse processo temporal, o material bruto, o próprio cotidiano retratado e documentado, altera-se do antes (o presente do início da obra e nosso passado) ao depois (nosso presente e um futuro deslocado do filme), para que assim se edite um período que confronta todos os paradoxos individuais dos desejos sociais, entre necessidades, modernidades e a reconfiguração das vontades. É neste cenário de acompanhamento durante seis anos que o filme “Samuel e a Luz”, de Vinícius Girnys, quer se desenvolver. Ao querer a ideia do progresso, como é o caso aqui da implantação da luz em Ponta Negra, um vilarejo de pescadores costa de Paraty, no Rio de Janeiro, os desejosos recebem também todas as consequências naturais e esperadas da globalização/gentrificação. É uma “venda eldorado”, numa migração invertida. Quando turistas “descobrem” um lugar, a justificativa é a de que se gerará renda à população local, que poderá expandir o financeiro criando uma cartela maior de possibilidades de produtos. Cerveja mais cara, artesanato, barcos que param na areia de uma praia “com emoção”. É a máxima de “trazer a montanha”. 

Vencedor de Melhor Documentário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2023, e exibido na Mostra de Gostoso de mesmo ano, “Samuel e a Luz” analisa a vida de uma comunidade pelo foco intimista de uma família que muda a própria percepção de querer/necessidade básica ao longo dos anos. Da simplicidade das vivências mundanas, como pescar, brincar de bater na lata com um martelo, observar o silêncio, sonhar com o novo e tudo sem perder a essência da dignidade humana, de ser pautada no respeito entre seus próximos e de ter tempo de enxergar a própria existência compartilhada por poucos. 

A força e maestria de “Samuel e a Luz” está em jogar holofotes na consequência da transformação total, a de “superlotar” um lugar, porque a luz “obriga” a ganância de possibilidades de se conseguir mais e mais dinheiro. A diversão e o estado minimalista de se ter somente o que precisa são substituídos pelo excesso do desejo. Por um capitalismo tóxico que impõe a sensação fetichista do consumir. Neste, a felicidade está proporcional às experiências vivenciadas e ostentadas. Talvez, a cena marco zero de toda essa mudança seja a da geladeira, que pode muito bem metaforizar o Monolito de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, o “começo do fim”. Antes havia os selvagens, agora a evolução das “espécies” e seu mecanismo darwiniano conhecido como seleção natural. Isso faz com que mergulhemos em questionamentos de simbologia social. Qual o limite do “progresso”? 

“Samuel e a Luz” constrói uma antropologia cronológica do tempo e dessas mudanças. Um retrato desolador do futuro, que está em nosso presente. Quem nunca viu? Uma postagem de um influencer nas redes sociais do Instagram e Tik Tok criam uma enxurrada de turismo desenfreado, porque todos querem viajar para “copiar” a mesma foto, no mesmo lugar, do famoso canal digital. E/ou quantos de vocês já não viram noivas organizando casamentos na Itália após uma influenciadora dizer que é moda e trending. Pois é, Paraty, pelo visto, é mais acessível que a Europa, não é? Outro caso, de ficção baseada na realidade, é o filme “Betânia”, de Marcelo Botta, que aborda a vida de uma interiorana que também muda para a “civilização” por causa da energia elétrica (e seus banhos quentes e geladeira que não desliga). 

Sim, mas a história em questão aqui é bem mais preocupante, porque este é um documentário. “Samuel e a Luz” é o embrião de uma análise de uma nova era, que troca vivências orgânicas e naturais por experiências vividas para somente publicar na internet, desconstruindo “um paraíso idealizado”.  O longa-metragem consegue criar toda essa sinestesia ao imergir e unir nosso sensorial com os últimos resquícios de simplicidade e humanidade que trazemos em nossas existências. Talvez pela fotografia do diretor Vinícius Girnys com Pedro Cortese, Chico Bahia e Olívia Pedroso. Talvez pela montagem do diretor Vinícius Girnys com Tom Laterza e Gabriela Baraúna. Talvez pelo desenho de som de Daniel Turini, Henrique Chiurciu e Matéo Russon. Sim, talvez tenha sido tudo isso com uma orquestração irretocável de Vinícius Girnys. A mensagem que “Samuel e a Luz” quer passar é a de que nem tudo está perdido ainda. Ainda dá tempo. É só talvez apagar a luz, acender uma vela e se contentar com a própria vida acontecendo ao nosso redor, num cotidiano idílico que segue o ritmo da natureza e desenvolve aos poucos, sem “atropelar” a formação de identidade das crianças. 

4 Nota do Crítico 5 1

Conteúdo Adicional

Pix Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta