Saiba o que acontece no Festival Cine PE 2022

Saiba o que acontece no Festival Cine PE 2022

Drama de Halder Gomes, documentário sobre resgate familiar, e homenagem a Sérgio Rezende foram destaques nas duas primeiras noites do festival pernambucano

Por Clarissa Kuschnir

 A 26 edição do Cine PE começou na sexta e a programação contou com a estreia do primeiro drama autoral do diretor cearense Halder Gomes e com dois curtas fora de competição. O inédito e muito emocionante “A Vida Secreta de Delly”, do diretor pernambucano Marlom Meirelles e “Leila Para Sempre Diniz” (do veterano Sérgio Rezende, que foi o homenageado da noite de abertura, que ocorreu no tradicional Teatro Parque. 

“Eu não preciso ficar repetindo o que passamos para realizar nossos projetos. E essa edição talvez tenha sido a mais difícil de fazer desde 97, quando eu e Bertini, meu companheiro decidimos ingressar na área do audiovisual. Começamos o projeto em fevereiro, tivemos que adiar algumas vezes e chegamos aqui nessa data de dezembro”, explanou Sandra Bertini, diretora do festival, sobre as dificuldades da realização do evento e em seguida, agradeceu aos parceiros. E ainda complementou sobre a importância de poder ver tantas histórias sobre momentos de vida e reflexões, através do audiovisual. 

Um dos grandes momentos da primeira noite foi a exibição do curta “A Vida Secreta de Delly”. O filme é o resultado de uma oficina realizada pelo Cine PE no começo desse ano, em parceria com Marlom Meirelles, que tem o projeto documentando. Com a presença da própria Delly, o curta aborda a vida da travesti que durante o dia trabalha como catadora de recicláveis, do Cabo de Santo Agostinho.  “Eu sempre me vi como Delly, eu sempre me vi como mulher. Eu sempre achei a aparência feminina mais bonita”, disse o protagonista durante a coletiva de imprensa sobre sua transformação. Mesmo depois de tanto tempo o protagonista ter se guardado e escondido sua identidade, Delly disse que a oficina que culminou com a história de sua vida, foi o que a ajudou a assumir sua verdadeira identidade.

O segundo curta em caráter hors-concours foi “Leila Para Sempre Diniz”, do veterano cineasta Sérgio Rezende, que logo depois da exibição do filme subiu ao palco, para receber seu troféu Calunga de Ouro pelas mãos de Luiz Carlos Lacerda. 

“Há 25 anos atrás começou o festival e nesse mesmo ano tive aqui na cidade do Recife uma das maiores emoções da minha vida que foi a primeira exibição pública de Guerra de Canudos e na platéia estava o grande Ariano Suassuna e foi uma das coisas que mais me tocaram. E estar de volta aqui depois de tanto tempo comemorando a volta também do festival presencial e do cinema brasileiro que sofreu tão amargamente nesses tempos sombrios. Eu sou do cinema, do filme de longa metragem dessa sala escura da sala de cinema. E eu tenho esperança de que isso volte a partir do ano que vem, com a força que merece. Quando eu e Mariza filmamos Leila nós não tínhamos nossa família e quando fizemos esse curta descobrimos a família do cinema”, disse Rezende ao falar da força que teve com vários profissionais que o ajudaram a realizar seu primeiro curta, realizado em 1975. 

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A noite encerrou com a estreia do primeiro filme autoral (de drama) de Halder Gomes, “Vermelho Monet” (que abriu a Mostra Competitiva de longas). Conhecido como um cineasta de sucessos como a popular comédia regional “Cine Holliúdy” e sua continuação “Cine Holliudy 2: Chibata Sideral“, neste, Halder ousa (e muito) em um filme que reúne todas as artes trazendo para as telas a história de um pintor (Chico Diaz) que acabou de sair da cadeia e que tem que conviver com seus fantasmas dos passados. O longa foi rodado em Portugal, com uma pequena parte em Paris e ainda tem no elenco Maria Fernanda Cândido e a novata Samanta Muller.

“O mundo da arte sempre me fascinou. Faço muitas viagens e essas minhas viagens são sempre para visitar museus, ver concertos. É uma curiosidade medonha. Então eu tenho uma curiosidade muito grande para entender a cabeça dos pintores. É um universo que vivo intensamente, até muito mais que o cinema. Então isso pode causar um estranhamento por parte dos expectadores que me conhecem como um realizador de “O Shaolim do Sertão”, das comédias populares, desse universo, pois são coisas totalmente diferentes, mas ao mesmo tempo isso sempre fez parte da minha vida”, disse Halder durante a coletiva do filme.

A segunda noite das mostras competitivas abriu com dois curtas pernambucanos e quatro curtas da Mostra Nacional, encerrando com o documentário “Aldeia Natal”, do cineasta paranaense Guto Pasko que faz um resgate familiar através de um retorno dele para sua cidade depois de anos fora. Com um foco voltado muito para questões sociais e destacando as mulheres como protagonistas, o público lotou a noite no Cine São Luiz. A Mostra das curtas pernambucanos abriu com “Contos de Amor e Crime” (baseado nos contos do escritor pernambucano Marcelino Freire), de Natali Assunção e “Mormaço”, de Carol Lima.

“Resolvemos ler os contos de Marcelino Freire e ver o que mais nos tocava. Foram três contos já sabíamos o que queríamos falar da relação com a cidade, com os amores e com as questões sociais e raciais”, disse a atriz Kadydja Erlen sobre o processo de escolha para as filmagens do forte e potente curta “Contos de Amor e Crime”.

A Mostra Competitiva de curtas nacionais abriu com o ótimo “Andrômeda”, de Lucas Gesser, do Distrito Federal; “Alexandrina – Um Relâmpago”, de Keila Sankofa, de Manaus; a animação “O Destino da Senhora Adelaíde”, de Breno Alvarenga e Luiza Garcia de Minas Gerais; e “Maria” de Guilherme Carravetta de Carli, do Rio Grande do Sul. Ou seja, foi uma noite de curtas de ficção, documentários e animação muito voltada para as mulheres com diferentes pontos de vista e muito diversificada.

O longa documentário “Aldeia Natal” encerrou a segunda noite do Cine PE. O filme trata de questões pessoais, do próprio diretor Guto Pasko com muitos cuidados, por ser uma questão extremamente delicada de lidar com sua família, 30 anos após ter deixado sua cidade no interior paranaense.

“É um prazer enorme estar aqui estreando esse filme no Cine PE. Eu comecei a fazer cinema muito cedo. Para viver de cinema comecei a produzir muita coisa, principalmente para a TV, para poder pagar as contas. Eu estava me preparando para fazer meu primeiro longa de ficção, mas me deparei com um dilema pessoal e me peguei perguntando como vou falar de um outro se eu mesmo não resolvi minhas próprias questões. Parei tudo e voltei ao passado para redescobrir minha alma ucraniana”, finalizou o diretor antes da exibição de seu filme. E parece que o filme reverberou de uma forma muito positiva, pois na pós sessão deu para ouvir pessoas se questionando sobre o resgatar a origem de seus antepassados. Uma delas sou eu aqui, também neta de ucranianos. 

Cine PE 2022

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