Cine Holliúdy

O cego que grita bravo

Por Vitor Velloso

“Cine Holliúdy” de Halder Gomes conquistou um amplo público desde seu lançamento. Uma espécie de ode ao cinema, à brasilidade, ao Ceará, ao cinema de pancadaria, cultura popular etc, tendo como fio condutor de todos esses blocos, a comédia pastelona. 

Em um primeiro movimento o filme soa bastante consciente de por onde vai caminhar, dá uma caçoada com a famosa transmissão radiofônica de Orson Welles, expõe o problema, econômico e social, nacional do exibidor como elo final, apresenta seus personagens como quem faz teatro, dá a indicação na narrativa, mas não expõe o nome, mostrando o rosto. E na primeira cena internaliza uma questão televisiva, exposta em letreiro na abertura do filme, mas que se infiltra no projeto como linguagem, porém acreditamos ser proposital, uma mera denúncia formal dessa padronização. 

Não.

“Cine Holliúdy” acaba entrando até demais em seu personagem, passa a se sabotar, força piadas fora de contexto, que acaba prejudicando demais o ritmo, não consegue manter o interesse do espectador até o fim da projeção, repete a mesma fórmula cômica ao longo de todo o filme e abraça tão gravemente a colagem, que não possui nenhuma característica própria. O que acabou mudando um pouco no segundo filme. E essa perda de identidade acaba sendo exposta na própria concepção da obra, que quer ser tão abrangente, que assume o tom do “cearensês”, colocando legendas. O que tem suas vantagens, já que aumenta a acessibilidade ao longa, mas acaba tornando todo o processo brevemente mais cansativo.

E essa perda de ritmo acontece primordialmente pelo desespero de ser excessivamente dinâmico, o sentimento contrário acontece justamente pela composição televisiva que se apresenta na montagem. Um plano geral da cena é apresentado, o diálogo se inicia, conforme as falas vão passeando pelo enquadramento, a montagem isola o rosto do personagem, em seguida, retorna ao geral e assim sucessivamente. O jogo de câmera e corte, torna a experiência bastante enfadonha e impede o filme de conseguir realizar o humor com a própria linguagem, obrigando-o a recorrer única e exclusivamente ao diálogo, às tiradas rápidas etc. Toda essa construção se dá no campo popular, o que consegue atrair o grande público para a obra, mas acaba reforçando alguns estereótipos bastante problemáticos. Uma mulher submissa, outra objetificada, um gay que reforça todo um imaginário igualmente estereotipado etc. 

Acaba acertando em um diálogo ou outro, por reconhecer o tom popular da obra, em especial, o policial que na ausência do que fazer, grita: “Vou começar a prender gente”. Alguns breves retratos conseguem encaixar na dinâmica televisiva que se propõe, ou mesmo na caracterização, à lá Peréio, do prefeito. E as referências ao cinema de ação, como Bruce Lee e outros, são citados constantemente no roteiro, mas não possuem vez, pois a estrela da vez é: Francisgleydisson (Edmilson Filho), que brilha no palco, reencenando, improvisando, um filme que não consegue ser projetado por inteiro, pois o projetor quebra. Logo, a força imaginativa que acomete todos os espectadores na sala de cinema, torna-se o motor que mantém o protagonista na frente da câmera e do público, o que antes era a ideia de uma metacinema, cinema-cinema, torna-se cinema-teatro, onde a encenação torna-se um jogo de planos da platéia, de uma mulher que tenta consertar o projetor e um homem que se esgoela na coreografia. 

O jogo pode ser compreendido através da proposta de uma necessidade de reimaginar uma gênese cinematográfica nacional, através de uma mulher que remonta o projetor, mas a teoria acaba caindo na resistência de concentrar minutos à mulher, na própria estrutura da montagem que acaba demonstrando apenas a fragilidade de um homem diante daquilo tudo e acaba elevando todo seu esforço ao Oscar, à TV norte-americana etc. Como em “Até o Fim” de Ary Rosa e Glenda Nicácio, “enfia o Oscar no cu”. 

“Cine Holliúdy” é falho em diversos pontos que se esforça para agregar o público, acaba forçando demais em diversas piadas (característica de Halder Gomes), sendo particularmente sem graça em sua maioria e lento demais para que seja uma experiência agradável. É uma transa ruim de Tarantino, Avenida Brasil, Bruce Lee, Francisgleydisson e umas ideias isoladas interessantes, mas que na totalidade acaba se perdendo no meio da bagunça. 

 

Trailer

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