Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto

Desarticulação e afeto

Por Vitor Velloso

Em 2017 o mundo ficou menos interessante após a morte de Rogéria, que encantou a todos por sua verve transgressora que atravessou décadas, incluindo a ditadura. E apenas com sua existência, política, desarticulou a frágil moral de uma sociedade preconceituosa. Uma personalidade que não se assumia unilateralmente, não à toa o título do filme.

“Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto”, dirigido por Pedro Gui, é um projeto que assume seu caráter afetivo com a protagonista, mas deseja construir uma leitura múltipla da mesma, através de depoimentos de colegas de trabalho e familiares.

É comum neste tipo de documentário uma dificuldade com o desapego do material fílmico, já que há bastante sentimento presente na produção. Aqui não é diferente, há uma aproximação emocional da montagem com a personagem tão intensa que acaba fragilizando a proposta, tanto em ritmo, quanto em estrutura. E este é o eixo que divide os espectadores com o longa. Ao tratar de uma biografia, existe uma arquitetura lógica que irá nos trazer ao fim da jornada de Rogéria, mas como toda empolgação diversos parênteses vão sendo feitos ao longo da projeção, sem nunca serem justificados.

São comentários isolados que surgem sem a menor relevância, enxertos de material de arquivo que interrompe drasticamente um assunto etc. O filtro da produção não foi feito e a montagem abraçou a causa algo pela importância histórica, mas sem possuir a base para inseri-la. Desta maneira, o filme parece uma colcha de retalhos que é costurada através do carisma de Rogéria, pois sem o mesmo seria difícil manter-se na sala.

Ainda que o conteúdo seja interessante, o tempo que se perde buscando vácuos das falas é imenso, criando uma ruptura na experiência. Se estruturalmente a proposta fosse um deslocamento da narrativa, como é o caso de “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim” ou “Tunga – O Esquecimento das Paixões”, faria sentido, já que a concretude dos projetos é parte da personalidade que retratam. Mas no caso de “Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto” é uma desenvoltura pouco objetiva que domina a tela, gerando uma desarticulação pouco coerente com a inclinação que se inicia em tela. Os saltos temporais que ocorrem no meio da projeção, são desconexos e possuem um viés nostálgico da própria produção, que parece buscar a história a partir da fala de Rogéria, mas que cruza constantemente palavras de pessoas que trabalharam com ela, todas em tons diferentes, com viés distinto, gerando uma confusão descabida.

Enquanto a apelação sentimental não era eixo da montagem, todos estes quesitos surgiam como uma problemática possível de contornar através da relação do público com o objeto. Mas a progressão mostra uma fragilidade assombrosa neste aspecto emotivo, pois força uma situação emotiva, com uma aleatoriedade tamanha que não atinge o espectador, apenas compreendemos a tentativa através dos entrevistados que choram ou se emocionam ao ver um vídeo que o diretor exibe para os mesmos. Tais posturas diante do documentário, soam primárias e pouco concretas ao fim do mesmo, como se faltasse bagagem para tornar o mesmo material, as mesmas falas, algo mais concreto e sólido. A partir destas escolhas, o público percebe uma dissonância na tela. Cabe ao mesmo, consolidar suas reflexões acerca do viram.

“Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto” é um documentário importante, que resgata a memória de uma das figuras midiáticas mais históricas de nosso país, possui a força de ser combativo aos costumes moralistas e retrógrados que tentam retornar ao eixo do Brasil e a figura de Rogéria é um exemplo da força que os corpos não normativos, de acordo com a sociedade, podem ganhar mídia e se tornar um fenômeno cultural único.

E por isso, devemos reconhecer a importância do lançamento do filme neste momento e apoiá-lo para que sua força nos cinemas faça barulho àqueles que necessitam escutar e aprender que não se deve interferir na vida alheia. E se aparentemente não possuímos censura no país, a “defesa dos bons costumes” é a resposta legal que se dá para o ódio gratuito dos que aceitaram a colonização em seus “valores”.

 

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