Renzo Piano – O Arquiteto da Luz

Assalto à fotografia

Por Vitor Velloso

Reserva Imovision

“Renzo Piano – O Arquiteto da Luz” de Carlos Saura chega ao Reserva Imovision com dois nomes de peso para a cultura europeia. Saura faz aqui um conteúdo programático, uma espécie de institucional de complexo empresarial multinacional interferindo na paisagem de Santander. O negócio é engessado, eurocêntrico e não consegue ter um olhar crítico com o próprio objeto que filma. Está certo que Renzo Piano é o centro das atenções, como o próprio título já evidencia, mas o espectador sai do documentário sem grandes conhecimentos de suas obras e com a sensação de que não viu uma abordagem totalizante do monumento arquitetônico regional.

O filme não é sobre Renzo Piano, mas sim o fascínio do diretor em uma construção específica com sua assinatura. Seguindo parte da obra e da inauguração, o longa persegue a ideia de modernidade e “fluidez”, onde a natureza se une com a urbanização e a luz é o intermédio disso tudo. Mas já nos primeiros minutos de “Renzo Piano – O Arquiteto da Luz” fica claro para o espectador que a suposta concepção geral, que escuta parte dos moradores de Santander, que estão insatisfeitos com a construção, não irá para frente. E assim, o longa vai até o fim em seu grande jogo de aparências, bajulando o eurocentrismo mutuamente e reconhecendo suas inspirações na arte um do outro. Enquanto isso, parte dos residentes, que reclamaram de uma grande interferência na paisagem e de um projeto de privatização violenta ocorrendo ali, são cortados do filme em uma velocidade ímpar. 

O mais estranho é que eles foram incluídos na montagem final, ainda que sumam do documentário, o que demonstra a vontade de Saura em deixar claro que não se trata de uma obra arquitetônica unânime na cidade. De toda forma, esse vácuo gerado pela montagem, a partir de uma discussão que é iniciada e interrompida para bajulação da genialidade de nosso protagonista na compreensão de uma verdadeira representação das “belezas de Santander”, são gravíssimos e difíceis de ignorar. A falta de um rigor em qualquer formulação proposta pelo cineasta, faz com que tudo se torne asséptico e programático. Os próprios cenários utilizados para a entrevista, em sua maioria, seguem essa tendência hospitalar. 

Parte da obra é falada em inglês e vai mostrando como a “grandiosidade” da figura de Emilio Botín era essa multinacionalização do capital. Uma grande homenagem de um conglomerado empresarial globalizado para um dos maiores grupos financeiros do planeta. E é onde “Renzo Piano – Arquiteto da Luz” passa a divagar em torno de movimentos, água e luz, atrás de uma genialidade na figura central do arquiteto, mas encontra apenas discursos eloquentes de como nenhuma daquelas falas é capaz de viajar além da Europa. É uma naturalização do material que tira o próprio propósito das coisas. 

Próximo ao fim, Renzo diz acreditar que a “arquitetura também tem seu dever social”. Bom, é o que poderíamos imaginar vindo dessa suruba de capital estrangeiro. E é por isso que o documentário é ainda mais frustrante, pois Saura parece estar diante uma discussão material em torno de patrimônio cultural, privatização, invasão de capital internacional etc e decide bajular a nova criação do arquiteto. Que por sinal, é uma aberração na paisagem. Mas isso pouco importa. 

Os fades vão e voltam nessa dissolução de imagens sépticas e “belas” das construções, ou dos edifícios erguidos por homens. O projeto é de uma canalhice soberba, que apenas homenageia um multimilionário e gera esse cancro paisagístico para quem está em Santander, e Saura cria uma espécie de perfil glorioso de Renzo. “Renzo Piano – O Arquiteto da Luz” não se debruça sobre sua figura, nem sobre essa frase que é uma transa direta com fotografia (exceto por um trecho de 30 segundos), nem sobre a cidade, nem nada. Parece estar no vão do próprio monumento, esperando o “vazio mágico” ser preenchido por sabe-se lá o que. Essa construção toda parece perseguir algo que jamais é encontrado e o limbo é de um tédio assombroso. Não porque o ritmo oscila, mas porque terminamos a projeção e temos a certeza de termos visto a apresentação do novo site da empresa.

Se o filme tivesse aquela verve dos últimos três minutos, daria mais pé que escutar os “globalistas” discursando sobre seu eurocentrismo.

Trailer

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