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Remoinho

Aridez, aqui me tens de regresso

Por Victor Faverin

Durante o Festival de Cinema de Gramado 2020

O curta-metragem paraibano “Remoinho” (2020), dirigido e roteirizado por Tiago A. Neves, compõe a Mostra Competitiva do 48º Festival de Cinema de Gramado e carrega o peso da tristeza da protagonista em cada enquadramento, bem como na trilha sonora. A sensação de fracasso por necessitar regressar à casa da mãe, no semiárido nordestino, com um filho pequeno, é uma realidade experimentada por muitas mulheres no Brasil. É necessário ter em mente tal circunstância, bem como o que a origina, para se conectar verdadeiramente com o filme, que aborda o peso sentido pelo adiamento – ou extinção – de um sonho.

O anseio, nesse caso, é o de ser artista. A personagem demonstra no olhar triste e distante a desilusão certamente experimentada no Rio de Janeiro ou em São Paulo, estados que formam um eixo cruel e desconvidativo a quem não obedece a padrões pré-definidos de beleza. Em uma das cenas, ao adentrar ao quarto e ligar a caixinha de música que lhe pertencia na adolescência, a personagem simula o movimento da bailarina uma vez, cessa o movimento e o repete. Há, na cena, ainda que produzida de forma levemente artificial, a mensagem de que nem tudo está perdido e que ainda é possível manter o sonho, mesmo quando tudo parece conspirar para o contrário.

Da mesma forma, em outro momento de “Remoinho” – esse sim composto de forma orgânica pelo diretor – a protagonista olha para cima e vê a armação do telhado da casa pobre, que se assemelha a uma escada de madeira gasta pelo tempo, mostrando a ela que, talvez, ainda haja chance de progressão, mas não para agora, ou, da mesma forma, pode representar a ruína de sua ascensão. Não há definidores aqui, assim como não existem setas orientadoras no caminho da vida.

Essa falta de rumo sentida pela personagem principal encontra na mãe um bálsamo, apesar de ela expressar uma aura onde se lê a tristeza pela situação da filha e a mágoa por ter sido deixada de lado. “Quando era pequena, só pensava em conhecer o mar, depois veio com essa mania de querer ser artista”, diz, diante da aridez da paisagem. Realizar o primeiro sonho da filha não era uma tarefa fácil, mas agora ela talvez tenha a chance de fazê-lo com o neto, dando fim a um remoinho de frustrações.

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