Relatos do Mundo

Tom Hanks, o agente da "liberdade"

Por Vitor Velloso

Netflix

O Globo de Ouro mantém a tradição de ser a premiação-termômetro para o capital norte-americano e internacional, trazendo consigo seus conservadorismos que traduzem a sociedade do norte. “Relatos do Mundo” de Paul Greengrass reforça que a carreira do cineasta anda apática e reforça uma série de questões políticas realçadas pelo faroeste ao longo dos anos.

O filme acredita na dualidade histórica estadunidense, investe em representações estereotipadas e consegue um “Capitão Phillips” com “Planeta dos Macacos: Guerra” e um bocado de atravessamentos históricos com olhar unilateral de uma sociedade que marcha ao Oeste em busca de sua eterna prosperidade. O sonho imperialista e neoliberal é poder findar a temática que lhe rendeu lucros à base do fetiche da violência. Para driblar uma questão que poderia saturar determinadas premiações, a escolha aqui é transformar o solo da “terra da liberdade” em uma espécie de contrato de reconciliação com adendos explícitos.

O barato vai atrás de uma narrativa que encontra suas âncoras no clichê do ex-militar com traumas físicos marcados, onde sua missão se torna salvar a vida de uma garota que havia sido sequestrada por tribos indígenas. Aqui uma margem está aberta para os reacionários de todos os tipos, esse sequestro da tribo kiowa escancara a decadência da burguesia estadunidense e reforça que frente a moral dogmática evangélica, os horrores da secção que funda os EUA, os povos nativos estão entre os motivos primordiais de interrupções da liberdade individual do “povo escolhido”. “Relatos do Mundo” é o campo fértil que argumentos febris sejam impostos como verdades infundadas. A exemplo de texto virulento de portal nacional, que faz trocadilho com Iluminismo, ou em seguida, ao criar uma interpretação assombrosa do motivo da tribo não tê-la acolhido em determinada situação do filme.

São recorrências dos conservadores, investirem contundentemente em uma análise que se vê livre enquanto manifesto para proclamar o jogo de interesses que acreditam estarem em projeção. Em outro momento fala-se que o capitão em encontro com a garota alemã, Johanna, significa a fundação de uma nova nação? O único exemplo histórico que temos disso terminou em uma guerra mundial, fugir da factualidade é criar delírio intelectual. O tal encontro dos dois personagens é apenas a maneira que Grenngrass encontrou para aliciar a forma cinematográfica aos interesses da burguesia internacional. Uma narrativa eugenista não seria a representação que o Oscar e o Globo de Ouro estão à procura, logo o meio-termo entre a destruição absoluta dos povos nativos (em tela) com a redenção de seu capitão que “tanto lutou por seu país” é a chave para que o espectador compreenda que sua liberdade individual é fruto de um rompimento político e econômico que o transformou em um andarilho leitor de jornais.

Fundar uma nova nação foi o sonho dos brutamontes que geraram as piores crises econômicas da história do povo do norte. “Relatos do Mundo” é um ode ao revisionismo histórico a partir de um dos pilares da Hollywood contemporânea, Tom Hanks. O ator que mais interpreta a redenção moral de uma sociedade que se vê vitimada pelos próprios crimes cometidos. É uma manutenção de representações que desvirtuam a realidade para a idealização internacional que purifique os estigmas dados ao país do capital. No longa de Greengrass, há um retrato que se divide na crueldade dos homens brancos, na indiferença do Estado e no paralelismo dos povos nativos.

É o véu que contamina os espectadores ao redor do mundo. Pequenos jogos formais que o diretor promove, cria uma ampla distração no eixo narrativo. Em uma terrível tempestade, um breu que é iluminado por relâmpagos, vemos a tribo de Johanna ignorá-la e marchar em direção contrária (o texto citado anteriormente cria uma conspiração tenebrosa aqui). Contudo, a violência dos norte-americanos contra o próprio “herói” protagonista, se dá com clareza, destreza, planos mais vívidos, uma câmera na mão (típica do diretor) que fetichiza o “jogo de xadrez” com a morte. O próprio símbolo do capital é utilizado como munição. “Relatos do Mundo” é a transa do “novo mundo” imperialista e capitalista, com a redenção do Norte, a compreensão do Sul e o apagamentos dos nativos em ausência de representação. Nada de novo no front industrial que encontra em Tom Hanks sua maior engrenagem.

Trailer

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