Ratoeira

Um tom de fragmento e experiência

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra Tiradentes SP 2021

Algumas obras do cinema brasileiro contemporâneo vêm tentando um diálogo direto com a montagem rítmica que encontra espaço em uma experimentação do objeto, pela objetiva. Entre um metacinema e a capacidade de articular em torno da ficcionalização do mundo, alguns recortes vão ganhando corpo, transando com o ensaio, criando frentes diferentes na atuação, é algo muito particular. “Ratoeira” de Carlos Adelino não possui um eixo narrativo tão definido, está concentrado nas experiências entre a matéria, o personagem e a montagem.

É como se Frampton dialogasse a matéria terceyro mundista, entre a sociedade de consumo, de Pasolini a Han. Não trata-se de uma obra que busca a política como representação primordial, mas encontra uma mise-en-scène a partir da “precariedade” do despejo da classe, da assimilação. Sem perder um acesso incisivo com um campo ensaio e não cedendo à ficcionalização vulgar e barata. É uma experimentação na crítica, uma crítica da experimentação, é um barato funcional em múltiplas mãos. Uma das estranhezas causadas aqui, é a centralidade do quadro diante de personagens mortos, mas cheios de vida. Objetos que ressuscitam diante de uma experiência, na montagem e empírica. 

“Ratoeira” possui força por caminhar à margem da representação centralizadora das classes dominantes, por cadenciar espaço e tempo a partir de uma dificuldade que o cinema encontra em entender que ele em si é composto de tempo, espaço é outra coisa, mas matéria… Disso o Brasil sabe bem.

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