Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido

Mubi e um título indigesto

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido” de Lili Horvát é um mix entre a “arthouse”, em sua fórmula mais banal, com um Christian Petzold mambembe e todo um drama-thriller que se desenvolve em torno de como essa obsessão é um processo autodestrutivo e revelador. Esse suposto tratamento de choque que o filme persegue como sua narrativa de eixo único, pode ser uma frustração gigante para quem leu algumas comparações (com Petzold e Krzysztof Kieslowski, por exemplo) mais imediatistas pela internet. 

Em um primeiro momento, o longa consegue capturar a atenção do espectador por possuir um imbróglio dramático de maneira precoce. Mas a obra não consegue sustentar esse interesse e passa a perseguir a própria sombra. Está claro que boa parte do destino da protagonista será esse e “Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido” até consegue algumas sequências realmente interessantes, onde o tempo dos planos vão consumindo a paciência de Márta (Natasa Stork) e essa distorção da realidade é uma dinâmica com seu próprio rigor formal, com planos muito definidos e uma luz que, quase sempre, atravessa o quadro. Contudo, essa consciência formal vem com algumas objetificações ambíguas que são relacionadas às suas “pendências sexuais” e de um desejo um bocado nocivo. 

Para isso, as sessões de terapia se tornam escapes dramáticos onde o filme pode depositar certo conteúdo expositivo, a fim de não criar um abismo tão grave entre a interpretação e a representação. Nesse mesmo caminho, sua melancolia se confunde no desespero e na angústia de obter aquilo que lhe parece inalcançável. Esse “desafio” para quem já possui tudo, é exposto na linguagem como essa integração de Márta no espaço que a cerca. Seja no ônibus onde deve descer com velocidade ímpar para encontrar sua paixão, no meio dos observadores da cantoria etc. Quando Horvát investe nessa representação do espaço com uma espécie de elemento estranho à ele, é quando a obra encontra suas ambições e passa a dialogar com um suspense que funciona relativamente bem. 

São momentos isolados, promissores, que sempre tornam a ser engolidos por essa concepção de um rigor que não pode ser ultrapassado na ideia. “Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido” tem medo de sua própria protagonista. Se aproxima de suas fragilidades como quem procura resposta, a direção se comporta como a neurocirurgiã e abre caminho entre seus altos e baixos. Caso conseguisse se manter em uma das frentes, poderia balancear melhor a própria ânsia por quadros como o que estampa o pôster. Onde a necessidade de exposição encontra a desculpa perfeita para emoldurar um “plano arthouse”. Esse movimento desengonçado que encontra a mediação nas cenas de terapia, parece enquadrar diversos estereótipos dessa ideia dominante da arthouse, para quem sabe… garantir uma distribuição internacional. E nesse balaio todo de uma representação que seja capaz de assimilar o drama de sua personagem, seus desejos e seus tempos, os espaços vão se tornando mais esparsos e boa parte das ideias interessantes vão dando lugar aos convencionais planos “Mubi”. A grande quantidade de pessoas sentadas à espera de um atendimento no hospital é um exemplo disso. 

Tais consensos são demasiadamente entediantes e costumam cair na frustração por reconhecermos que existe ali um rigor que interessa, uma proposta que possui uma consciência clara, mas que se mantém nos grilhões de sempre. O eixo final é uma clara demonstração de como essa tríade construída na narrativa, pode ser dissolvida com a impotência mais repentina que o espectador poderia imaginar. Talvez a dicotomia que a luz procure, dessa invasão, até pudesse provocar mais em algumas explicitações didáticas, caso o produto esteja mirado ao mercado (a exemplo da caminhada dupla próxima ao fim do longa), todavia a ideia da arthouse parece que realmente encontrou um fundamento tedioso em “Preparativos para Ficarmos Juntos por Tempo Indefinido”: Petzold capenga, Kieslowski mambembe, uma protagonista meio Isabelle Huppert, uns planos dignos de promoção do Mubi e quem sabe… umas críticas bacanudas no Letterboxd. 

Espero ver mais coisas da Stork e Horvát, elas possuem uma dinâmica esquisita pra caramba que se encontrar um caminho mais sólido dá pano pra manga. 

Trailer

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