Jericó

A Terra Prometida

Por João Lanari Bo

Mubi

Jericó”: nome de ressonância bíblica, nome também da pequena cidade da Alemanha, situada no estado de Saxônia-Anhalt, com população estimada em 6.800 habitantes (Jerichow no original). Durante a 2ª Guerra foi palco de batalhas sangrentas e acabou ocupada pelo Exército Vermelho. A cidade fica na parte oriental do país, a parte que era comunista antes da reunificação alemã, em 1990: “Jericó” também é o título do filme que Christian Petzold realizou em 2008, inspirado no romance de James Cain, “The Postman Always Rings Twice”, e ambientado na pequena cidade alemã. Cain (Caim em português) é um personagem do Antigo Testamento da Bíblia, irmão de Abel, filhos de Adão e Eva. O filme de Petzold atualiza o trágico triângulo amoroso noir imaginado por Cain para o cenário pós-reunificação da Alemanha, confrontando um imigrante turco proprietário de bares na região e um par de nativos alemães: sua bela mulher, endividada e dependente do marido – encarnada pela atriz favorita do diretor, Nina Hoss, de “Phoenix” (2014) – e um ex-soldado que serviu no Afeganistão e foi expulso do exército por má conduta.

As primeiras cenas de “Jericó” são como um manual de como introduzir lentamente, passo a passo, informações dramáticas para deleite e sedução da audiência: Thomas, o ex-soldado, acompanha o enterro de sua mãe; alguém lhe cobra dívidas impagáveis e ele não tem como pagar, não tem nada, exceto a casa da mãe, isolada e depauperada. Sua expressão irradia uma paradoxal calma: é nesse momento que esbarra com Ali, o comerciante turco, alcoolizado, com o carro atolado à beira da estrada. Tudo se passa com um mínimo de gestos e diálogos, impecável exemplo de economia dramática: quanto menos, mais densidade. Ali acaba tendo a carteira de motorista suspensa e contrata Thomas, naturalmente, como motorista e homem de confiança, para ajudá-lo (e a mulher Laura) a administrar a rede. Os dados estão lançados: para quem conhece “The Postman Always Rings Twice”, publicado em 1934 e adaptado para o cinema pelo menos sete vezes, a conclusão é incontornável.

A concisão que o filme exibe nos diversos níveis de realização é o diferencial: direção de atores, mise-en-scène, montagem, iluminação, figurinos – como dizem os ingleses, you name it e encontrará a concisão. Tudo é admiravelmente contido e dosado, gerando uma narrativa que constrói a tensão quase que imperceptivelmente, com solidez. Aproximando-se do final, tudo se acelera: o enredo é passado ao avesso e aterrissamos em uma homenagem ao filme B noir, do grande Edgar Ulmer e também de “Carnival of Souls”, de 1962, uma das fitas preferidas de Petzold. Nada de reviravoltas ou revelações chocantes: a linguagem continua minimalista, mas pequenas linhas de diálogo e um objeto parcial psicanalítico – um isqueiro envelopado de brinquedo infantil – suspendem abruptamente a narrativa. Como disse um crítico, Petzold mostra tudo o que ele quer que vejamos, nem mais nem menos.

Um dos trunfos de “Jericó” é a consultoria dramática de Harun Farocki, o notável cineasta experimental adepto e praticante do materialismo dialético na linguagem cinematográfica – e também professor e depois colaborador de Petzold. O entorno social do enredo e dos personagens certamente têm embutido o rigor de Farocki. A conversão capitalista da Alemanha Oriental não foi (e continua não sendo) uma transição suave, um soft landing: desemprego, xenofobia, são ingredientes do cenário. Para dar uma ideia, no início do corrente mês de junho a imprensa alemã registrou, com indisfarçável alívio, que os correligionários da Chanceler Angela Merkel conseguiram frear os ultradireitistas do partido “Alternativa para Alemanha”, por ocasião das eleições na Assembleia Estadual de Saxônia-Anhalt. O temor que a extrema direita ganhasse – em um país que produziu o nazismo – era (e também continua sendo) real.

O Livro de Josué, do Antigo Testamento, narra a famosa Batalha de Jericó: a cidade foi rodeada por sete vezes pelos Filhos de Israel até que as paredes vieram abaixo, após a qual Josué amaldiçoou a cidade: “Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó”. Tudo que havia na cidade foi destruído a fio de espada, tanto homens como mulheres, tanto meninos como velhos, também bois, ovelhas e jumentos (Josué 6:26). Séculos depois, um homem chamado Hiel de Betel reconstruiu Jericó e assim como Josué havia predito, perdeu seus filhos como resultado. A Jericó moderna da Alemanha sobreviveu à maldição de Josué, e foi reconstruída após o cataclisma que foi a 2ª Guerra: a ira divina, verbalizada por Josué, foi contida. Mas a reconstrução não será jamais um processo acabado, finito. “Jericó”, em exibição no MUBI, é apenas mais uma etapa.

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