Mostra Um Curta Por Dia mes 12

Poropopó

Os sonhos de uma nova vida

Por Vitor Velloso

Mostra de Tiradentes 2022

Poropopó

Exibido no 25º Festival de Cinema de Tiradentes, “Poropopó”, de Luís Antônio Igreja, é um filme peculiar sobre uma família circense nômade que decide se fixar em uma cidade e buscar uma nova vida. Existem diversas alegorias disponíveis durante a projeção, que não apenas representam diretamente parte da história brasileira, como possuem elementos capazes de dialogar com o atual contexto do país. O que acaba tornando-se mais claro para o espectador é a canção presente no título, remetendo à canções de resistência contra a opressão. “Bella Ciao” não é reproduzida na íntegra, mas a lembrança é inevitável.

O problema dessa proposta é a fragilidade de um discurso que seja capaz de sustentar esse enfrentamento de uma comunidade com as figuras militares, já que a coisa toda fica no cerceamento das manifestações artísticas e solidárias. “Poropopó” investe na capacidade de se comunicar com o espectador com a menor quantidade de diálogos possível, recorrendo à construção dos cenários, de cores vibrantes, figurinos que dialogam com a estética circense e uma montagem que brinca com passagens do tempo, além de sonhos que se materializam e rapidamente são desfeitos. Aliás, os sons característicos cruzam a narrativa inteira, criando uma atmosfera híbrida entre a linguagem cinematográfica e a proposição de um circo enquadrado por essa pequena vila. Ainda que isso possa funcionar em algumas sequências, torna-se um problema para lidar com as exposições que almejam o didatismo dessas passagens históricas, assim como mostrar a força da população diante de abusos de poder das autoridades e opressões promovidas pelos fardados.

As questões acabam se mantendo em uma superficialidade que não condiz com a flexibilidade de uma forma que é capaz de sintetizar seus cenários a partir de uma fixação pelos espaços, mas também de viajar por um universo lúdico através de inserções e escapes, trabalhando com máscaras e diversos elementos de maneira simultânea. Essa falta de equilíbrio ressalta que “Poropopó” é rico pela multiplicidade na abordagem, ainda que não consiga desenvolver a proposta para além dessa representação que já se esgotou ao longo dos anos. Assim, o grande mérito do filme é conseguir esse diálogo entre as linguagens, com ricos recursos didáticos e uma estética que torna-se instigante com sua progressão. Não por acaso, a diferença das sequências essencialmente circenses para a nova cidade, chamam atenção do espectador, já que é capaz de limitar essa representação em um jogo econômico de planos, sem perder o brilho dessa relação lúdica.

Contudo, essa dinâmica depende diretamente do grau de imersão do público nessa fórmula, já que a mutabilidade é relativamente limitada ao longo da projeção. Caso a primeira metade não consiga instigar o suficiente, a probabilidade da segunda conseguir fazer isso é ainda menor. Portanto, a aventura proposta por Luís Antônio Igreja em sua carpintaria estética é um mergulho na íntegra, com altos e baixos, algumas atuações que podem comprometer momentos importantes para essa construção narrativa, como o clímax que justifica o título em referência a músicas de resistência e um jovem romance que nasce da diferenças e identificações provocadas pelo cotidiano, com onomatopeias e inserções na imagem. Essa característica é sem dúvida um dos trunfos de um projeto que é capaz de desdobrar uma temática particularmente simples, em diversas tramas que se complementam, criando uma gama dramática de poucos diálogos, mas capaz de demonstrar como o dia-a-dia pode ser atravessado por novos encontros e experiências.

“Poropopó” não consegue ser sólido a ponto de concretizar as discussões que ensaia propor, mas é encantador na maneira que transita entre diferentes formas e ainda mostra como o sentimento de unidade da população local, pode ser capaz de modificar sua realidade, através da solidariedade e de manifestações culturais que se sustentem, longe dessa patrulha constante, pelo presente ou por fantasmas do passado.

3 Nota do Crítico 5 1

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