Perdi Meu Corpo

Em busca do corpo perdido

Por Roberta Mathias

Talvez o que nos chame inicialmente atenção para a animação “Perdi Meu Corpo”– além da agitação que vem causando desde que foi lançada na plataforma Netflix no final do ano passado- seja a própria sinopse e o nome de Guillaume Laurant envolvidos. Sobre o primeiro ponto, prefiro discorrer suavemente pelas próximas linhas. Já à Laurant, é impossível não associá-lo ao “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”,  do qual foi roteirista. A animação , no entanto, também encontra as mãos do diretor Jérémy Clapin, do curta Palmipedarium. Uma combinação quase perfeita.

A estranheza conecta os dois profissionais sendo ela, desde o primeiro instante da animação, um importante fio condutor da narrativa. Contada através das rememorações de uma mão que busca seu corpo pelas ruas de Paris, “Perdi Meu Corpo” se mostra bem mais do que somente excêntrico. Não por acaso, saiu vencedor do Festival de Annecy.

Embora as primeiras sequências apelem ao inconsciente coletivo e nos levem à personagem “Coisa/mãozinha”, de A Família Addams – e, essa parece ser realmente uma piada impossível de se perder- a mão dessa animação se mostra bem mais densa logo na continuação da sequência inicial. Ela aprende a andar, tal qual um bebê, e testa suas próprias limitações físicas ao caminhar destemidamente por uma Paris noturna.

A partir de determinado momento, já nos desconectamos da estranheza inicial e nos deixamos ser levados pela personagem. A mão experimenta sensações que as fazem recordar da infância de seu dono. A animação, aliás, é extremamente sensorial. Os sons geralmente anunciam as imagens futuras sendo também importantes para criar uma atmosfera própria. Porém , o próprio tato é agudamente explorado- como era de se esperar- e faz com que à mão retorne à momentos felizes de seu corpo.

A relação nada original com Proust também me parece inevitável. Se não é através do do gosto, como Em Busca do tempo Perdido, que a personagem é atropelada pelas memórias involuntárias, elas cruzam seu caminho o tempo todo nos fazendo reviver a história que levou à solidão uma mão que, em tempos passados, tinha não somente um corpo, como uma família. Talvez nos remeta também à própria história da humanidade como a própria sequência na qual aprende a andar e em uma sequência na qual reporta ao fogo para fugir de uma comunidade de ratos. Mas, essas são extrapolações de minha mente para dizer que, “Perdi Meu Corpo” é sobre a solidão humana e, como aprender a viver com esse sentimento.

O dono da mão, Naoufel, teve uma infância feliz: sua família o incentivava, tinha pais presentes, uma situação econômica aparentemente estável e projetava seu futuro. Durante um acidente trágico, no entanto, seus sonhos são dissolvidos- como madeleines em uma xícara de café- e ele precisa reconstruir sua vida. Por conta da pouca idade e do pouco acolhimento – esquecemos, mas afeto também é um aprendizado- o jovem se reconfigura em um ser completamente sem tato social. Tudo que sua mão sente parece realmente ter ficado perdido no momento do acidente, o qual revive continuamente através de fitas gravadas.

É somente o encontro com Gabrielle, uma jovem bibliotecária, que faz despertar a possibilidade de uma relação mais sólida. O que se dá é o não romance, ao invés do romance. Naoufel persegue a jovem e se conecta à sua vida sem revelar a identidade real. Revelando uma personagem extremamente fragilizada pelas perdas infantis, Naoufel se mostra incapaz de estabelecer esse primeiro contato sadio. Quando o faz, a própria possibilidade do romance já parece perdida. Em seu percurso, a mão se conecta visualmente e afetivamente somente com crianças – bem possivelmente porque os adultos seriam incapazes de entender a existência de um ser tão estranho.

“Perdi Meu Corpo” me fez recordar “Waking Life” pela experiência de estranheza inaugural e me fez recordar “Embriagado de Amor” pela estranheza do romance que propõe.  Se o tivesse que definir em uma única frase, talvez o colocasse em alguma posição entre os dois. Isso por si só ,já torna a animação interessante à ponto de nos fazer querer ler o livro da qual foi adaptada , Happy Hand, do próprio Laurant.

Embora perca fôlego ao apresentar as personagens “inteiras”, a animação ainda se mostra extremamente sensível e a música de Dan Levy nos transporta para outro lugar. Entre o corpo, as memórias de infância, o que perdemos e a possibilidade de enganar o destino- ou de sua própria existência.

 

 

 

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