Paraíso

Espaço, história e afeto

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“Paraíso” de Sérgio Tréfaut é uma homenagem aos idosos que frequentam o Palácio do Catete para declarar seu amor. O documentário nos mostra que os encontros eram realizados com a típica festividade carioca em suas rodas de cantoria. Contudo, o retrato particular da tradicional cultura se encontra em um núcleo da cidade conhecido por um acesso limitado ao resto do Rio. A cidade é conhecida por sua mobilidade urbana pouco democrática. Assim, de maneira pessoal, devo dizer que não sinto que essa ode representa o Rio que conheço. Com exceção das músicas, tudo soa distante e pouco reconhecível. 

Porém, o esforço de Tréfaut para nos incluir nessa gira de sorrisos e memórias, é notável. O diretor busca que esses encontros sintetizem seu retorno ao Brasil. O título do filme surge como uma ambiguidade, exposta no fim da projeção, mas sugere esse espaço como a troca de afetos e lembranças que afasta o presságio. A estrutura segue uma observação rigorosa, a objetiva é colocada em uma distância média, enquadrando sem atrapalhar o “espetáculo”. Porém, os longos planos marcados por sua rigidez e composição quase repetida, faz com que o ritmo se arraste por toda a projeção. “Paraíso” é um platô de ciclos que organiza, em sua montagem, alguma produção de sentimentos a partir da cadência das performances, sendo difícil embarcar na festividade.

Aqui, o Palácio do Catete é o palco dessa felicidade em comunhão, como uma espécie de contraposição histórica ao que o monumento representa. Essa iniciativa da ressignificação, não exclui que o edifício em si e seu entorno são pouco convidativos para uma parcela da sociedade. Logo, essa espécie de paisagem política tomada de afeto, surge como um recorte de classe, onde a própria inclusão da urbanização no documentário, é quase um desvio de seu eixo central. Se durante alguns trechos parte do público pode enxergar ali uma tentativa de “poetificar” esse prosaico para sobrepor uma decadência explícita da tradição e do próprio bairro, com a classe bem definida, pode se surpreender com o gesto final que a produção faz, para homenagear uma “geração dizimada” (como está na sinopse) pela pandemia do coronavírus. 

A residência oficial dos presidentes entre 1867 e 1960, marcada por um punhado de sangue nas mãos desses “representantes do povo”, se torna mais um palco para o descaso com a população. É onde “Paraíso” consegue criar laços interessantes. A ressignificação do espaço público, hoje museu, passa de palco dos sorrisos de uma geração que canta sobre amor, para o tributo às vítimas de uma política que mantém a morte como compromisso fundamental. É no contexto que o filme ganha corpo, no espaço-tempo compreendido entre o presente e o passado, tendo um fantasma que assombra o futuro. O espectador reconhece o presságio e é convidado a buscar na memória alguns encontros antes da pandemia. A dificuldade direta com a obra é uma questão de espaço também. 

Assim, não é possível ser categórico ao dizer que o funcionamento é comprometido por tal razão, mas sem dúvida a experiência individual vai pesar durante a exibição, como qualquer obra, e pode ser fator decisivo para a dicotomia acentuada de opiniões que veremos. De qualquer forma, a lentidão do longa, citada anteriormente, é inerente à proposição feita para concretizar uma observação sem interrupções nos rituais que ocorrem nos jardins do Palácio do Catete. 

Para um filme que trata desse retorno ao Brasil e está preocupado com tais manifestações no espaço público, “Paraíso” se preocupa muito pouco com seu entorno e acaba deslocando os acontecimentos para uma tentativa de suspensão geográfica. São muitas as maneiras de interpretar o movimento que a produção realiza, mas é possível imaginar que isso ocorra para que esse isolamento esteja de acordo com as investidas do “lírico” da tradição, da idade e da história, mas um pouco de abertura com as próprias personagens mudaria muito o sentido aqui. 

Retomando o comentário inicial, é possível dizer que a conexão com o filme é dependente de tantos fatores externos que se torna uma roleta russa. Para este que vos escreve, não funcionou. 

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