Papicha

Entre o sistema e a revolta

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Seguindo uma tendência vigorosa de uma politização cinematográfica, “Papicha” é exibido durante a 43ª Mostra de São Paulo com aplausos calorosos no fim da projeção. O indicado da Argélia ao Oscar, vai concretizar essa inquietação geral de um mundo contemporâneo que parece resgatar fantasmas do século passado e reafirmar uma condição anacrônica de diversas questões.

Atravessando com maestria todas essas sinuosidades, a diretora estreante, Mounia Meddour, compõe uma obra singular, construindo uma mise-en-scène trabalhada em um esteticismo consoante à temática de sua protagonista, Nedjma (Lyna Khoudri). Mirando o avanço do fundamentalismo, a cineasta estrutura uma narrativa direta que fragiliza pontualmente suas personagens, mas prepara o terreno para que haja um levante contra os avanços, a partir das mesmas. Utilizando de base o próprio sistema, o longa parte dessa complexa relação entre uma tradição rígida e a emancipação dos corpos femininos. Assim, é notório que o ponto histórico da década de 90 é facilmente espelhado na atualidade, já que os âmbitos políticos não se distanciaram.

O maior trunfo da universalidade da narrativa é conceber uma dramatização sólida que é gradual em suas conquistas, de maneira a sintetizar como o fundamentalismo se projeta na vida de quem sofre com suas atitudes. As reações são diversas, claro, mas em “Papicha” se dá de maneira tão fluida que unifica culturalmente o projeto. Conforme o progresso da trama se dá na tela, o espectador se vê em meio à um turbilhão de visceralidade diante daqueles corpos e a necessidade de se rebelar contra as diferentes opressões que atuam sobre os mesmos.

De maneira intrínseca, a diretora costura (com o perdão da palavra) uma linguagem que assimila uma padronagem destes projetos contemporâneos ao passo que respeita uma forma mercadológica de se atingir determinado público e festival, a indicação na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes é fruto disso. O comentário não denigre a imagem composta por Meddour, afinal, é comum se trabalhar visualizando uma exibição específica, mas compromete brevemente a originalidade da produção.

É fácil prever determinados comentários acerca da natureza política do filme. Se em “Coringa”, a polarização o rotulou como “esquerdista e sem Deus”, é provável que “Papicha” receba o título de deturpado e destruidor dos bons costumes, aliás, aparentemente a manifestação feminina incomoda a fálica sociedade decadente. Este tipo de radicalização através dos comentários acerca de uma obra, apenas fortalece o discurso da mesma, assim como os ataques aos corpos enrijece a postura firme de resistência. E isto é claro na sociedade e no cinema, basta analisarmos os últimos projetos de destaque no circuito e nos festivais, que veremos que o enfrentamento político à esse fundamentalismo crescente, que toma para si moldes do liberalismo, é uma nota que se repete.

A revolução proclamada às sete artes não compreende uma base simples que se distancia das telas, e este é o problema central de manifestações de apoio a tais obras. Uma cegueira nociva aos próprios objetivos do grupo. Meddour parece compreender isso, não à toa, parte do interior de um sistema eurocêntrico e que recusa grande parte das temáticas que aborda, para gritar aos mesmos. Concomitante a isso, o conservadorismo de Cannes expõe a falência de suas atitudes. Este ano uma mulher foi impedida de entrar por estar sem salto alto, e uma diretora não conseguiu ver a exibição de seu filme por estar carregando uma criança de colo que não estava na lista de convidados. A latência de uma virilidade tóxica nunca permitirá que o festival registre um caráter afirmativo com sua política.

“Papicha” é um grito necessário em meio à tanta proposição retrógrada, um respiro que busca emancipar as mulheres Argelinas que estão sempre à frente das questões políticas do país. É arrebatador esteticamente e formalmente consciente de suas intenções. Traz uma atuação central hipnotizante e uma relação encantadora com os tecidos e as formas. Não propõe revisionismo e aponta diretamente que as roupas possuem papel crucial na formação de uma cultura e de uma conscientização geral, inclusive para a revolta.

 

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