Pão e Gente

A Reflexão da Traição

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

A questão da persuasão literária se repete na Mostra Aurora, dentro da programação da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Agora o discurso barroco e florido de um cinema que não se encontra fora da referência estoica é confrontado diretamente por uma proposta política mais assertiva. “Pão e Gente” de Renan Rovida é uma obra que reverencia com orgulho o dramaturgo Bertolt Brecht, se projeta com canção em alemão e tenta proferir a devida politização a uma causa nobre, enquanto negligencia a brasilidade contida no contexto que se implementa seu texto.

De boas intenções o calor está cheio. Entre a fornalha e a fome, o projetor lança à tela a escala de cinza, dramatizando os feitos já consolidados em tom cenográfico, em uma segregação brutal das particularidades do texto original e da realidade nacional do cinema contemporâneo. As fortes tentativas de se justificar quanto ao ponto datado da obra, enquanto filme, são derrubados pela estrutura narrativa da obra alemã. A dramaturgia anacrônica que abre à política a possibilidade de revisitação da composição social de qualquer país é a mesma que nega a revisitação formal dela mesma. Não à toa, a discrepância assombrosa que há entre os elos artísticos da traição adaptativa acaba usurpando o teor impositivo de uma mutação do status daqueles personagens.

Essa onda estoicista e plástica que decide firmar sua posição através de uma mutabilidade do conteúdo do quadro, acaba se tornando tradicional em contexto histórico e permite que haja uma falácia na pretensão de construir um olhar diferente para os problemas nacionais. Ainda mais quando a intencionalidade passa por esse vislumbre original que tanto se almeja diante de seu público. Este problema não é exclusivo de “Pão e Gente”, mas sim de uma leva de filmes contemporâneos que não reinventam suas narrativas através do tempo, mas sim se rendem a elas com uma precisão estética que acaba castrando as possibilidades da obra.

Renan é consciente de seus quadros, mas não consegue criar uma estrutura que amplifique ou realoque aquela narrativa em seu tempo e espaço. Está tão concentrado em absorver aquelas informações que não transmite aquele fervor ao espectador que aguarda uma vertigem social em construção, mas admira uma monotonia quase estruturalista dos acontecimentos na tela.

Além disso, o filme parece estar o tempo inteiro se distanciando de uma realidade nacional, ainda que acredite firmemente estar seguindo uma narrativa que se conscientiza da urbanização da problemática social que tanto foi representada no cinema brasileiro. Mas não consegue em momento algum transmitir essa adaptação para a tela com um olhar que se diferencie do texto que Brecht começa a escrever em 1929. Enquanto a literatura brasileira urge em constantemente retrabalhar as novas formas de opressão sobre os trabalhadores e como isso implica na sociedade, “Pão e Gente” mantém uma verve de quase cem anos e parece repetir os mesmos arquétipos agora em 2020. Com mudanças sutis, o longa se torna cansativo e datado a cada minuto que passa.

Se ampliar o raio de alcance do que se filma está atrelado a admitir a existência ensaística deste ao revelar o dispositivo diante de seus personagens, a amplitude deve ser alcançada através de um algum status cultural que lance a obra em um patamar de distanciamento do objeto que se retira aquelas ideias. Do contrário, nenhuma forma se concretiza através das palavras de Brecht e a soltura permanece uma constante que não se contorna com a postura sólida de retrato estoico e desnudo de uma vivacidade que se não se enxerga na tela. A falta de convívio da pele diante do assunto provoca essa convicção da realidade enquanto se furta da liberdade de libertar um texto de quase cem anos.

“Pão e Gente” é bem intencionado e consciente da política que trabalha enquanto discurso academicista, mas acaba transformando sua forma em inconsequência que recusa o grau de politização necessário em tempos como o que vivemos. Cede constantemente às tentações de europeizar seus traços e transforma uma obra que julga a brasilidade como um retrato regional que se filma com constância no espaço. Ainda que o desastre não seja absoluto, há de se lembrar a necessidade de reiterar esse brasilidade no discurso que se propõe através do finado alemão, tão enterrado quanto a atualidade de seu texto em tempos urbanos contemporâneos neste país que tanto nos maltrata. Seguimos o baile de continência ao centrismo estético europeu.

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